quinta-feira, 22 de outubro de 2020

UMA VELHA CANÇÃO ROCK N' ROLL

 

Quando estudava em Assis, havia uma menina que queria impressionar. Já não era criança; mas, assim como hoje, continuava idiota. Eu tinha vestido uniforme de rebelde e não tirava meu jaco de couro; nem pra estudar, nem pra fazer bobagem. Uma vez, entreguei uma prova de Latim em branco, só pra tirar dez na prova seguinte. Ninguém notou. Tempos idos, se eu me chamasse Aparecido, era uma rima e não uma solução. É uma delícia se esconder, mas é uma tragédia não ser encontrado; sequer procurado; ter de brincar sempre sozinho, feito patinho feio, até descobrir-se cisne. Naquele tempo, estava barrigudo por conta da cerveja; mas, numas férias, comecei a correr e emagreci. E, então, ela me notou e fez o pior elogio: " Nossa, como você emagreceu! Não tem mais aquele barrigão!" Anos antes, ao mesmo menino, ainda menor, o cupido fez visita. Desde os cinco, não desaprendi de apaixonar. E era amor o que sentia pela profe do pré. Na semana das crianças, encontrei um besouro lindo, azulado, e coloquei num vidro, e guardei pra presentear. No dia dos professores, entreguei. Quando foi embora, no entanto, ela esqueceu sobre a mesa. Corri pra entregar; mas, quando alcancei, ela estava beijando um moço de bigode preto dentro de um carro vermelho. O menino deixou ali o besouro e nem olhou pra trás quando um caminhão de bebida passou por cima. Não é fácil crescer poeta num país de bolsonaros. A gente guarda os sentimentos mais bonitos em vidro vazio de maionese; quando entrega ao outro, entretanto, ele não percebe, não vê a pureza do amor que vai. Só vê o vidro vazio. E o besouro é só besouro mesmo. Alguns homens, pouco práticos, estão condenados à sua solidão. Para tais seres, a vida monástica acaba mais sedutora que a mais bela das raparigas.

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