quinta-feira, 22 de outubro de 2020

EPISTEME


O comentário sobre um texto diz mais sobre o leitor que sobre o texto. Quando Pedro me fala de Paulo, sei mais de Pedro. Não deveria ser. O aprendizado é um encontro. Texto e leitor, professor e aluno. Um não prescinde do outro; nem pode ser mais importante. Acontece que desaprendemos o silêncio e a graça do não fazer. Queimamos, pois, a primeira etapa: o silêncio interno da acolhida. Antes de acolher o que o outro ou o texto dizem, já preparamos a conexão e, pior, a resposta. Se a palavra se encaixa em nosso sistema de crenças, repetimos; caso contrário, tapamos os ouvidos, porque ela ameaça - de morte - aquilo que imaginamos o "eu". É por isso que, quanto mais avançada a idade, mais difícil o aprendizado. Com a identidade ancorada neste eu enrijecido, blindado, o novo bate na armadura e cai pelo chão. Temos a ilusão de que somos a armadura; mas somos é a criança em espanto sufocada; agonizando atrás do aço. Na mística, o sentido do segundo nascimento é desfazer-se da armadura. Deixar a criança, protegida apenas pela fé, aberta aos encantos e perigos do mundo. Cordeiro em meio aos lobos, morrer para nascer ao eterno, segundo nascimento, tornar-se criança, mente de principiante. Só a criança, mesmo no adulto, acolhe o novo. É por isso que o aprender se assemelha ao brincar. Primeiro silenciamos, tocamos o brinquedo, apalpamos, conhecemos, cheiramos, transferimos o colo e o seio para a pele do objeto; depois conectamos esse brinquedo - palavrapoema - ao lego do mundo. Tão simples, tão difícil. Só aprendem aqueles que são leves e mantém a alma irmanada às borboletas, beija-flores, crianças e bolhas de sabão

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