A genialidade não basta, é preciso que ela venha coroada com a joia da humildade. O gênio dificilmente é reconhecido por seus pares. Escreve sempre à posteridade, a um povo ainda por nascer. Schopenhauer só foi compreendido no final da vida. Nietzsche pagava as edições do próprio bolso. Mesmo Fernando Pessoa morreu bêbado, fazendo propaganda para a Coca-cola. De modo que não é suficiente criar uma obra estupenda, é preciso que ela seja ornada pelo caráter firme de um ser húmil. Eu, por exemplo, sei que escrevo coisas deslumbrantes, mas nunca vendi mais de vinte livros. As obras que mudam o mundo sempre foram para poucos. Também nunca fiz questão de falar em lugares elegantes ou aceitar prêmios. Certa vez, doei meia centena de livros a uma unidade do CEU para a qual deveria fazer palestra na semana das crianças. Foi a condição que impuseram para que eu fosse um dos convidados. As normalistas tentaram ler meus livros com os educandos; minha palavra, todavia, é densa demais. De modo que não conseguiram. Então, na data agendada, fui de terno e gravata porque levo a sério meu ofício, cruzei a cidade num trânsito infernal, demorei mais de três horas para chegar ao último bairro da Zona Sul; quando chegou minha hora, no entanto, não havia público. Ninguém havia se inscrito para ouvir a palavra nova que eu tinha a dizer. Envergonhado, o Diretor saiu pelo recinto recrutando pessoas para constituir o público. As únicas que aceitaram, contudo, foram as faxineiras, porque aquele dia precisavam lavar todo o prédio e, caso assistissem a palestra, estariam dispensadas do trabalho. Qualquer outro artista poderia se sentir humilhado diante de tal situação; mas sou húmile e, quando peguei do microfone, deixei minha alma naquele minúsculo mezanino:
quinta-feira, 22 de outubro de 2020
O ESCRITOR HUMILDE
- Minha obra – comecei – não é senão o registro da vida fascinante que tenho levado...
Cinco horas depois
, boa parte das faxineiras tinha preferido voltar ao trabalho e duas ou três dormiam pelos cantos. Encerrei meu pronunciamento e fui para casa com a sensação de dever cumprido. No ano seguinte, quando voltei ao CEU, desta vez tendo doado toda a aparelhagem da sala de vídeo e mais a reforma da biblioteca, as faxineiras estavam impacientes para me ouvir e todas liam. Uma carregava um exemplar do Ulisses, de Joyce; outra, uma caixa com todos os volumes de Proust; uma terceira lia Dostoievski no original. Você pode não acreditar. Pode dizer que, como ficcionista iluminado e singelo, inventei tudo. Respondo que não. Eu, por meu turno, poderia dizer que foi em virtude de minha curta fala que as camareiras deram tal guindada cultural, mas sou discreto, despretensioso, humilde. Reforçando o que disse no início, a genialidade é frívola se não vier acompanhada de uma personalidade que não louva a si mesma
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