quinta-feira, 22 de outubro de 2020

VARRER UMA CASA


Hoje, quando varria a casa, não pude deixar de resmungar. Todos os dias, o mesmo trabalho. A cada manhã, a rotina bate forte. As crianças deixam as coisas espalhadas; bebem água e esquecem o copo sobre a pia. Difícil sim; mas, então, do nada, lembrei-me da alegria com que, pela primeira vez, varri este chão. Saíamos de uma casa de dois cômodos alugada. Por todo o piso, a cerâmica branquinha. O trabalho era o mesmo, mas quanta diferença! Cada filho agora teria seu quarto e eu limpei este mesmo chão com um senso de sublime gratidão. Emular aquele sentimento bastou para que a tarefa se tornasse mais leve. Olhei meus filhos adolescentes e saudáveis. Boas pessoas, pô! Coloquei uma canção pra tocar e realizei que isso de viver não é só sobre ganhar prêmios, ou vencer debates. A vida é também varrer o chão, regar as plantas, cuidar dos bichos, ver as crianças crescendo, fazer amor com quem a gente gosta. Não é necessário pintar o teto da capela Sistina, ou viajar para Marte. Não é necessário sequer escrever poemas. Qualquer atividade é veículo; linguagem propícia para dizer do quanto amamos. Como nada mudara por fora, mas eu era completamente outro por dentro, a filha se ofereceu para limpar o banheiro e meu menino perguntou:
- Ô pai, já cuidou dos bichos? Se não, deixa que eu cuido.
O trabalho não terminou. Nunca termina. Agora é hora de preparar o almoço, o qual se segue de uma pia de louça suja. Não há como fugir dessas tarefas. Mas, como tudo o que fazemos na vida, é mais fácil e fica melhor se a gente faz com amor.

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