quinta-feira, 22 de outubro de 2020

SAMBA PA TI


Tinha motivos para estar estressada. Meu pai fora um canalha na juventude e, agora, sofria com as dores do Parkinson. Durante a noite, não dormia, nem me deixava dormir. E eu tinha aquele trabalho terrível, telemarketing, e, havia mês, terminara o noivado. Além disso, o folgado do meu irmão só aparecia aos domingos, para assistir futebol e pousar de bom filho. Enquanto isso, eu tinha de lavar, engomar, cozinhar, suportar a gemedeira. E, se eu cobrasse alguma coisa, respondia: "Deve tá de TPM". De modo que, naquele dia, o copo transbordou. Quando comecei a falar, não parei mais; disse tudo que estava engasgado. O pai também não é fácil. É pelo limão que se conhece o limoeiro. Tudo o que eu dizia, retrucava. Acontece que moramos num sobrado geminado e os vizinhos estavam pintando a casa para entregar. Tinham se divorciado e agora cada um seguiria seu caminho. Neste instante derradeiro, no entanto, pintavam juntos e o rapaz colocou uma de suas playlists românticas: Bread, Chicago, Bee Gees, Boca Livre. Eu ainda xingava, quando percebi que meu pai estava chorando. As mãos agarradas à bengala, como se quisessem segurar a morte, desarmaram-me. "Que foi, pai?" "Essa canção tocou no dia em que sua mãe e eu nos casamos. Ainda sinto muita falta dela". Não consegui pedir desculpas, mas a briga parou. Fiz um chá de camomila e entreguei uma xícara. Só então reparei como estava velhinho. E quase passei a mão nos cabelos ralos ao levar as xícaras de volta à cozinha

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