Há um tipo de Amor que é verbo intransitivo; doação; estado de ser: eu amo. Há, no interior, um vazio pelo qual é possível ser manifestação deste Amor no mundo. A maioria dos mortais, no entanto, ama, mas precisa de um objeto no qual depositar o que há de mais belo, benigno e delicado em seu coração. Acontece que, quando a luz encontra um objeto, a sombra se projeta. Tudo que se afirma, afirma também seu oposto, ou seu complemento, ou sua diferença. O preto pode ser o oposto do branco, seu complemento, como no diagrama do Tai Chi, ou uma das muitas variações do cinza. De qualquer modo, o que quero dizer é que quem ama também odeia e que, quem muito ama, muito odeia. Esta é a ambivalência do ser humano. Lembro quando o João era pequeno - bebê guloso - se a mãe demorasse a dar o peito, ele mordia; com força, com raiva, com vontade de ferir. Por outro lado, quando ela o amamentava, olhando nos olhos, entregando amor junto ao leite, ele colocava o dedinho na boca dela, sereno, na ânsia de retribuir. É da condição humana amar e odiar. Tal paradoxo, nos mais sensíveis, pode causar, todavia, uma fissura no centro do ser. Esta fissura, por um lado é fonte de agonias impensáveis; por outro, é o vazio de que falei: o portal no qual se pode mergulhar em Deus, tornar-se mais que humano e ser presença daquele Amor sem objeto, pura emanação divina a iluminar a Terra.
quinta-feira, 22 de outubro de 2020
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