quinta-feira, 22 de outubro de 2020

E A VIDA É BONITONA!


Se pudéssemos nos dar conta de que somos felizes quando a felicidade acontece, seríamos perfeitos. Humanos, no entanto, perdemos o instante ansiando o futuro, ou ressentindo o passado. E o momento real em que a felicidade aconteceu, só o temos depois, como lembrança, porque estávamos distraídos quando. A gente só percebe a grandeza de uma pescaria com o pai, quando o pai já não pesca. E, no entanto, havia ali tanta lição silenciosa sobre a vida. Nada desaparece; do nada, nada nasce, tudo então se transforma. Enquanto temos a ilusão de perder, todavia, é melhor pensar que o ser humano fica mais rico quando perde, porque cada perda expande nossa alma. Tudo aquilo que imaginei ter perdido, vive agora dentro de mim. No filho, subsistem o pai e o bisavô. Cada paisagem, cada amigo e companheira, cada festa ou velório, cada canção... Nada se perdeu. Meu coração é o ponto privilegiado no qual milhares de coisas, bichos, flores, paisagens e pessoas fascinantes se encontraram e desnudaram-se em estado de poesia. O primeiro amor ainda me visita sempre que o amor acontece. Alguns acumulam bens; outros, prestígio. Eu junto vida. Por meio de mim, meu amigo Rogério existe um pouco no meu filho João que nunca o conheceu. Tudo continua de um jeito diferente. Eu já não sou o menino de cinco anos, tampouco sou outra pessoa. A criança ainda fica feliz dentro de mim quando sente o cheirinho ruim de um filhote de cachorro. Morrer é só mudar de morada. Distribuir-se. Os vivos somos a casa dos que se foram. Toda a jornada do Céu e da Terra se acumula no fundo do agora. Um neandertal dá o salto decisivo nos meus polegares. Todos somos matrioshkas! E a vida é bonitona!

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