quinta-feira, 22 de outubro de 2020

LE CHEF


Todos queremos ser felizes, mas a vida dói. Felicidade não é ausência de dor; é abertura. Brito, por exemplo, não tinha um único osso inteiro. Na juventude, uma Kombi cheia de bêbados caiu na Serra do Mar e ele, resgatado três dias depois, foi o único sobrevivente. Era um dos muitos bêbados que frequentavam o bar do meu pai. Tinha sessenta e cinco anos, mas parecia ter cento e sessenta e cinco. Sentia muitas dores e não ligava. Quando a aposentadoria acabava, não tinha vergonha de esmolar em frente à Caixa Econômica. Nestes dias, pedia uma Brahma e, contando as moedas, dizia: "Meus amigos me pagaram uma gelada." E ria. Brito fora preso algumas vezes pelo policial Viana. Agora, os dois estavam aposentados e bebiam juntos. Um dia, desentenderam-se na sinuca. O Brito, no entanto, achou a briga boba e, no meio da discussão, gritou: "Dar-te-ei uma porrada!" Depois virou pra mim atrás do balcão e perguntou: "Tá certo isso que falei, Donié?" Até o Viana; um senhor de um metro e noventa, pesando uns cento e vinte quilos, militar; riu. E aí pediram mais dois rabos de galo, com Cynar, e ficou tudo certo. Viana acabou levando o inimigo, que tinha perdido a bengala em meio aos tacos, pra casa. Brito era vaidoso, embora não tomasse banho. Gabava-se de ter sido chefe de cozinha. Os mais velhos confirmavam, mas corrigiam: "cozinheiro num boteco na Luz". Uma vez, alguém duvidou dos dotes culinários, o chef então se ofendeu: "Vou fazer uma pizza!" E capengou pra casa. Voltou horas depois e colocou a forma coberta sobre o balcão. O pano de prato parecia pano de chão. A princípio, o boteco inteiro ficou receoso, mas o Gordo, não resistindo ao cheiro, pegou um pedaço. Todos o seguimos. E dá-lhe cana! Não sobrou azeitona. Depois que o Brito véi morreu, por muito tempo ainda se falou daquela pizza. Foi a melhor pizza que comi na vida

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