quarta-feira, 3 de junho de 2020
O SALTO
Observo meus cães. Estão bem. Encaixados em seus corpos, sem passado ou futuro. Se brigam, não se arrependem, não pedem desculpas; entendem-se naturalmente em seguida. Não há a angústia funda, a dúvida, a aflição de ter de decidir entre o que o instinto grita e a promessa feita ao outro. Ao ser humano é vedado o caminho animal. Do cão ao homem, a consciência dá um salto. Não nos é possível retroceder, só nos resta saltar de novo. O que é grande no ser humano é sua dor. A aflição de ser um Deus preso a tripas e que acaba sabendo de seu fim. Se não sou meu cão, tampouco sou Deus. E é aí que, a partir de um gesto de reverência, torno-me oco, túnel, corda estendida entre o animal e Deus, porque contenho os dois. Há um lugar – no Ser - a que chegamos quando as pupilas, mesmo com as pálpebras fechadas, voltam-se, por si mesmas, ao alto. Um ponto vazio que é ao mesmo tempo passagem e fronteira; eternidade e queda no tempo. Se me assento neste lugar, posso ver meus movimentos no mundo como se fossem de outra pessoa. Posso falar de mim na terceira pessoa. Amor. Quieto neste vazio, não estabeleço diferença entre mim e os corpos que me cercam. Amor. O egoísmo, a ganância, a ira, o ódio, não existem aí; porque o que observo é tanto meu corpo, quanto o corpo do vizinho no mundo e eles não diferem. Amor. Já não me identifico com o “eu”. Só há um sujeito nesta frase e ele não é o ser humano. O salto não é para menos consciência, mas para mais. “Abrirmos a cabeça para que afinal floresça o mais que humano em nós”. Todas as crises apontam para este lugar, mas só uma prática cotidiana sedimenta a trilha para que não haja diacronia entre o eu-vazio e o eu-telúrico. No princípio, o eu-telúrico age e o eu-vazio se manifesta em seguida. Com a prática, ambos passam a atuar em uníssono e é aí o Além do homem, a Iluminação, o Despertar, o Cristo, o Nirvana. Se lemos tantos livros, o que esperamos para ler nossa própria atividade mental? Podem me ignorar; podem matar meu corpo; podem até ferir meus sentimentos, mas nada podem fazer contra mim. Já não sei se sou eu quem vive na Desmesura ou se é a Desmesura quem vive em mim. Não há contornos quando saímos para dentro🌻
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