Assim como tudo neste mundo, o texto também tem um lado luminoso e outro sombrio; um polo yin, outro yang. Sempre que afirmo algo, trago junto aquilo que nego. E, como o texto é sempre um recorte, rede lançada em mar vasto, ele diz tanto pelo que afirma, quanto por aquilo que nega ou cala. A palavra é apenas um instrumento de manejo do silêncio. Dostoiévski era cristão ortodoxo, dizia que, se a verdade estivesse fora de Cristo, ficaria com Cristo e não com a verdade. O autor identifica-se com Sônia, Liza, Aliosha, ou o príncipe Mishkin. Seus leitores, no entanto, seres humanos de um tempo desencantando, preferem os niilistas-demoníacos Svidrigailov, Ivan, Stravoguin. Nietzsche proclamava a fidelidade à Terra, à imanência, à potência criadora da arte, à alegria revolucionária; o anão de Zaratustra, por seu turno, com a ajuda da irmã Elizabeth Foster-Nietzsche, arrancou à obra os caminhos do Nazismo. E não há aí uma leitura certa ou errada. O Nazismo está lá mesmo, na obra, como potência de sombra; o texto sempre extrapola a intenção do autor. Assim como em Dostoiévski ou Nietzsche uma obra de caráter positivo desencrava também seu duplo maligno; na obra de autores com uma visão apocalíptica de mundo; num repente, saltam da página vislumbres de delicadeza, esperança e amor. O caso que mais me fascina é o Céline do Viagem ao fim da noite. No meio do pântano mais depressivo, há um buraco de minhoca, olho oco que nos conduz à alegria; bem como em meio à maior felicidade se esconde o germe do desespero. No Viagem, Céline traça um retrato terrível da humanidade: guerra, crueldade, egoísmo, cinismo, falta de qualquer escrúpulo, ou empatia. No romance, a personagem que melhor encarna tudo isso é Robinson. Por outro lado, Céline cria também o menino Bébert, que era inclusive o nome de um dos gatos do escritor, e a prostituta Molly, seres profundamente angelicais. Em seu outro grande livro, Morte a crédito, Céline inicia a narrativa falando ao seu primo alcoólico, um náufrago bonito, a respeito de sua lenda. Tal lenda é uma metonímia do ágape celiniano. Bukowski entendeu bem a lição do mestre. Por mais que seus narradores sejam bêbados, céticos, niilistas, há sempre uma dose de ternura por alguma mulher desajustada. É isso que as cópias do velho safado nunca capturam.
A escrita não é, pois, apenas uma questão estética. É algo muito mais sério. E perigoso. Muitas vezes, é Mr. Hyde quem toma conta de nossa pena.
segunda-feira, 22 de junho de 2020
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