sexta-feira, 12 de junho de 2020

VIVER

Quando um homem passa dos setenta e lança um olhar sincero sobre sua jornada, percebe que cada pessoa desvela algo que precisava ser alçado à luz, compreendido, transformado, acolhido. Chumbo em ouro. Todas as emoções negativas, sob a atenção do eu-vazio, transmutam-se em Ágape. 'A medida que o eu-vazio é despertado e há a busca, aos poucos, eu-vazio e eu-telúrico sincronizam-se, fundem-se de tal modo que, com o tempo, todos os nossos gestos, palavras e atos são manifestações do Maior. A vida serve apenas para encontrarmos o caminho que nos faz mais solidários. O outro sempre ensina algo, inclusive por meio de sua desonestidade e violência. Cada qual segue seu caminho. Setenta, oitenta anos, mal é tempo de ajustar minha própria jornada, como posso corrigir o comportamento alheio? Cada pessoa, cada lágrima, riso, dor, festa tornou meu coração mais amplo. Não é o imensurável que deve se adaptar ao eu; pelo contrário, é o eu quem precisa desaparecer para que a criança pronuncie sua palavra encantada e se dissolva outra vez num amálgama de almas. E morrer, por fim, não é acabar, é expandir-se.
Como pode ser digno o caminho humano.

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