sábado, 4 de janeiro de 2020

UM VENTO BULIÇOSO



Aquilo que é humilhado é sempre o ego, nunca o Ser. Talvez não seja correto usar a palavra humilhação, mas a expressão “posto em seu devido lugar”. É que o ego é uma excelente ferramenta; o problema é quando tenta fazer como Cláudio, tio de Hamlet, e usurpar o trono. Todos nós somos multidão, mas aquele que conduz a carruagem deve ser sempre Krishna, Cristo, o Ser, a centelha divina. Então, ontem, por ser meu primeiro diz de férias, resolvi subir uma pedra. Gosto disso. Mais que esporte, trata-se de um exercício espiritual. No alto de uma montanha, a gente ocupa outra vez o lugar de criatura. É difícil dar valor excessivo ao eu quando você está sobre uma pedra de três bilhões de anos. Ainda assim, sobre a matéria sólida, você vê caminhar uma caravana de formigas; e percebe que a Divindade está inteira tanto na rocha, que impassível observou gerações, quanto na menor das formigas. Tudo aquilo que é, é digno. E dignidade é bem diferente de vaidade. É olhando do alto de uma montanha que a gente percebe o quanto é minúsculo e, ainda assim, único, raro: digno.
Já estávamos próximos ao topo quando ouvimos as primeiras súplicas. Alguém tinha saído de sua casa, numa quinta-feira a tarde, para escalar uma montanha e, lá do alto, em completa solidão, conversar com Deus. O homem tinha uma voz embargada e gritava, chorando, entregando-se inteiro; pedia, simplesmente, misericórdia, amor; e diminuía-se para acolher o sagrado.
Continuamos e, a cada passo, a voz tinha um tom mais elevado. Meu coração gelou. Senti vergonha por testemunhar tamanha nudez: “Ó Senhor, sei que não mereço; mas, por misericórdia, volta teu olho amoroso a este teu servo indigno que sofre e que geme!” Era um homem negro, de cabelos brancos, beirando os cinquenta anos. Estava ajoelhado, prostrado, as mãos estendidas como se pedisse esmola; a cabeça encostada na rocha. O topo é estreito. Não há como se esconder no topo de uma montanha e o homem sentiu nossa chegada. Levantou então a cabeça e nos encarou com a face dilacerada, coberta de catarro e lágrimas. Recompôs-se. Limpou o rosto com a camisa e nos cumprimentou. Abriu uma garrafa de água. Tomou um gole. Despediu-se. E iniciou a descida. Senti culpa. Se tivéssemos chegado pouco depois, talvez o homem já tivesse terminado.
Eu respirei fundo. Entreguei. Olhei as carretas minúsculas, menores que insetos, cruzando a estrada que rasgava o vale e fiquei pensando qual seria a chaga daquele ser humano?Talvez tivesse um filho no presídio, uma mulher doente; talvez sentisse apenas uma culpa esmagadora por algum erro da juventude.
Pouco depois, um avião cruzou o céu e um vento buliçoso acariciou meus cabelos como se fossem as mãos invisíveis do Maior.

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