Aquilo que é humilhado é sempre o ego, nunca o Ser. Talvez não seja correto usar a palavra humilhação, mas a expressão “posto em seu devido lugar”. É que o ego é uma excelente ferramenta; o problema é quando tenta fazer como Cláudio, tio de Hamlet, e usurpar o trono. Todos nós somos multidão, mas aquele que conduz a carruagem deve ser sempre Krishna, Cristo, o Ser, a centelha divina. Então, ontem, por ser meu primeiro diz de férias, resolvi subir uma pedra. Gosto disso. Mais que esporte, trata-se de um exercício espiritual. No alto de uma montanha, a gente ocupa outra vez o lugar de criatura. É difícil dar valor excessivo ao eu quando você está sobre uma pedra de três bilhões de anos. Ainda assim, sobre a matéria sólida, você vê caminhar uma caravana de formigas; e percebe que a Divindade está inteira tanto na rocha, que impassível observou gerações, quanto na menor das formigas. Tudo aquilo que é, é digno. E dignidade é bem diferente de vaidade. É olhando do alto de uma montanha que a gente percebe o quanto é minúsculo e, ainda assim, único, raro: digno.
Já estávamos próximos ao topo quando ouvimos as primeiras súplicas. Alguém tinha saído de sua casa, numa quinta-feira a tarde, para escalar uma montanha e, lá do alto, em completa solidão, conversar com Deus. O homem tinha uma voz embargada e gritava, chorando, entregando-se inteiro; pedia, simplesmente, misericórdia, amor; e diminuía-se para acolher o sagrado.
Continuamos e, a cada passo, a voz tinha um tom mais elevado. Meu coração gelou. Senti vergonha por testemunhar tamanha nudez: “Ó Senhor, sei que não mereço; mas, por misericórdia, volta teu olho amoroso a este teu servo indigno que sofre e que geme!” Era um homem negro, de cabelos brancos, beirando os cinquenta anos. Estava ajoelhado, prostrado, as mãos estendidas como se pedisse esmola; a cabeça encostada na rocha. O topo é estreito. Não há como se esconder no topo de uma montanha e o homem sentiu nossa chegada. Levantou então a cabeça e nos encarou com a face dilacerada, coberta de catarro e lágrimas. Recompôs-se. Limpou o rosto com a camisa e nos cumprimentou. Abriu uma garrafa de água. Tomou um gole. Despediu-se. E iniciou a descida. Senti culpa. Se tivéssemos chegado pouco depois, talvez o homem já tivesse terminado.
Eu respirei fundo. Entreguei. Olhei as carretas minúsculas, menores que insetos, cruzando a estrada que rasgava o vale e fiquei pensando qual seria a chaga daquele ser humano?Talvez tivesse um filho no presídio, uma mulher doente; talvez sentisse apenas uma culpa esmagadora por algum erro da juventude.
Pouco depois, um avião cruzou o céu e um vento buliçoso acariciou meus cabelos como se fossem as mãos invisíveis do Maior.
Já estávamos próximos ao topo quando ouvimos as primeiras súplicas. Alguém tinha saído de sua casa, numa quinta-feira a tarde, para escalar uma montanha e, lá do alto, em completa solidão, conversar com Deus. O homem tinha uma voz embargada e gritava, chorando, entregando-se inteiro; pedia, simplesmente, misericórdia, amor; e diminuía-se para acolher o sagrado.
Continuamos e, a cada passo, a voz tinha um tom mais elevado. Meu coração gelou. Senti vergonha por testemunhar tamanha nudez: “Ó Senhor, sei que não mereço; mas, por misericórdia, volta teu olho amoroso a este teu servo indigno que sofre e que geme!” Era um homem negro, de cabelos brancos, beirando os cinquenta anos. Estava ajoelhado, prostrado, as mãos estendidas como se pedisse esmola; a cabeça encostada na rocha. O topo é estreito. Não há como se esconder no topo de uma montanha e o homem sentiu nossa chegada. Levantou então a cabeça e nos encarou com a face dilacerada, coberta de catarro e lágrimas. Recompôs-se. Limpou o rosto com a camisa e nos cumprimentou. Abriu uma garrafa de água. Tomou um gole. Despediu-se. E iniciou a descida. Senti culpa. Se tivéssemos chegado pouco depois, talvez o homem já tivesse terminado.
Eu respirei fundo. Entreguei. Olhei as carretas minúsculas, menores que insetos, cruzando a estrada que rasgava o vale e fiquei pensando qual seria a chaga daquele ser humano?Talvez tivesse um filho no presídio, uma mulher doente; talvez sentisse apenas uma culpa esmagadora por algum erro da juventude.
Pouco depois, um avião cruzou o céu e um vento buliçoso acariciou meus cabelos como se fossem as mãos invisíveis do Maior.
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