- SONHOS – anuncia o rapaz na bicicleta equipada com uma cesta na frente. Aperta a buzina, sorri e repete: – Sonhos, vendo sonhos!
Compro um. Recheio de doce de leite. O garoto tem tino e saquinhos estampados com nome comercial: PRIMAVERA SONHOS. – Um dia ainda abro minha própria confeitaria, tio! - Enquanto isso, pedala, sob sacos plásticos, na chuva. Sinto muita pena dos negócios que já abrem destinados à falência. Não falo de empresas, conglomerados, esse papo de empreendedor etc e tals. Eu vejo é a pequena porta aberta com dois ou três litros de cachaça; ou a outra com algumas balas e uns sacos de pipoca: a imagem da santa atrás de uma vela acesa; ou, ainda, a loja de salgados com duas ou três coxinhas na estufa. Por trás de cada porta fechada, há muita esperança enterrada, muito sonho sem caminho. A dor de ser gente e de tentar, com as próprias mãos, sustentar a vida e as crias. Sonhos simples suicidados pela sociedade. Lembro do meu amigo Chapolin, que era alcoólico e tinha epilepsia. Numa queda, perdeu todos os dentes da frente. Em outra, perdeu um pedaço do nariz. Aí começou a frequentar reuniões e parou de beber. Sentados em frente ao bar do meu pai, tomando tubaína, ele disse: - Meu SONHO é conseguir uma dentadura, Dani. – sorriu, escondeu a boca com a mão, continuou: – Quem sabe assim eu consigo arranjar uma namorada. Declaração dolorosa de solidão. Também, eu judiava dos bêbados: só tocava música de corno. E só sabe mesmo o valor de uma dentadura quem já foi banguela. Com o tempo, Chapolin arranjou um trampo de ajudante e conseguiu não só a dentadura, como também uma bicicleta. Consequência natural, veio a namorada, mas ela era bem velhinha e ainda bebia e ele não mais. Depois de uma queda, a bike espatifada, o relacionamento terminou.
Enquanto me lembro do Chapo, vejo o ministro da fazenda explicando na tevê como vai ser bom perder direitos trabalhistas e meus amigos de esquerda discutindo no Facebook, preocupados com a FLIP, com o fechamento ou não da Avenida Paulista: “mais valia, événement, fascismo, Foucault, manterrupt”. Não é à toa que ainda se trocam votos por dentaduras. A dentadura é uma coisa concreta.
sábado, 4 de janeiro de 2020
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