sábado, 4 de janeiro de 2020
E O CORAÇÃO É UM BAILARINO
Anteontem, comemoramos o nascimento de uma criança há mais de dois mil anos em Belém. Como tudo mais que fazemos, no entanto, a comemoração era como o sonho de um sonâmbulo. É que agimos pela tradição, porque os pais de nossos avós faziam assim, porque todos agem assim. É mais o instinto de manada que o nascer do Cristo que nos leva a comemorar o Natal. Quase nunca nos perguntamos pelo significado e, quando o fazemos, aceitamos a resposta de terceiros, não investigamos nosso ser para entender o que o nascer dessa criança nos diz. É em nosso coração que o menino nasce diariamente, é o nosso coração que tem de renascer criança. O coração da criança diz sim e não, mas não visa o lucro. A criança conversa com as flores e ama o que é. A criança é boa e não sabe de moral. Sua bondade não é uma luta entre o espírito e o corpo, mas o fruto de sua integração com todas as cores do mundo. O que se pode aprender de Deus numa Igreja pintada de cinza-escuro, cheia de gente séria, coberta da cabeça aos pés, reprimindo seus desejos? Nada. Deus é simples – você pode dar a ele a máscara e o nome que quiser – e habita os corações alegres. Toda tormenta é distância de Deus; mas, como disse o outro, o mais profundo é a pele e, quando parecemos mais distantes do Amor, mais próximos estamos. A tormenta é a pedagogia pela qual Deus nos oferece o seio. E digo sem medo de errar que quem não clamou é que não sofreu ainda. Não é no comércio com os homens que a criança se manifesta: Cristo não foi crucificado pra me presentear com um carro zero; pelo contrário, é na ação sem qualquer interesse, sem necessidade de plateia, ou lucro, que o menino dança em nosso coração. O natal representa então, em mim, o desejo de servir, de cuidar, a humildade, o amor, a ausência de interesse, de desejos egoísticos. E todo dia é Natal quando ajudamos o vizinho a aparar a grama, ou quando tomamos café e perguntamos pra atendente de olhar triste se está tudo bem, se ela está precisando de alguma coisa. É Natal quando fazemos algo por alguém apenas por fazer. E quando o menino põe na rua os pés descalços se encanta com a dança das andorinhas, com a solidez das pedras, com a vastidão do mundo. Natal é ter o coração contente, é dançar, é cuidar e servir. É ter a dignidade de, sendo o Mestre, lavar os pés dos discípulos. O nascimento dessa criança simboliza em nós a conciliação com o Deus-Juiz e nos faz dançar nas ruas, junto ao Deus dos nãos, porque agora já não temos corpo, somos inteiros coração e o coração é um bailarino.
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