Quando nos anos noventa Leonard Cohen voltou de um retiro de seis meses na montanha, num bangalô sem luz elétrica ou água encanada, um repórter perguntou ao poeta pelas dificuldades que atravessara:
- Foi fichinha. Difícil mesmo é o casamento.
Embora pareça lugar-comum, toda prática espiritual nos incita a despertarmos a melhor versão de nós mesmos. Ninguém está aqui para corrigir o outro. Por mais equivocado que o outro esteja, não posso mudá-lo; não tenho qualquer controle sobre ele. Só tenho controle sobre minhas próprias reações diante das atitudes alheias. Há, então, dois caminhos num relacionamento: ou eu busco trabalhar em mim as imperfeições que vejo no outro, porque todo casal acaba por se tornar um pouco espelho; ou justifico minha inércia espiritual e meus erros por meio dos erros do outro. Isto quer dizer que o outro estará sempre certo? Não. Quer dizer que o outro – e seus erros – são meu espelho e lâmpada. Espelho porque enxergo no outro aquilo que o ego não me deixa ver em mim mesmo e lâmpada porque a convivência aponta senderos. No caminho monástico, encontro-me no confronto comigo mesmo. No caminho partilhado, descubro-me na lida comigo e com o outro. Não há caminho melhor ou pior, pois todas as trilhas espirituais levam ao topo da montanha, ao centro da própria alma. A alma é o paradigma, o Maior dentro de cada um de nós, e toda maldade é, de fato, distância dela. Quanto mais longe estamos da Fonte, mais o eu-egóico se torna poderoso. Não há outro Diabo senão esta parte de nós que sempre nos diz que somos imensos, que temos razão, que somos, de alguma forma, melhores que nosso semelhante. Crime e castigo trata disso. Todos nós convivemos com Deus e o Diabo diariamente: a alma e o eu-egóico. A primeira é generosa, humilde, criativa, delicada, luzidia, terna; o segundo, o contrário, e seu maior trunfo é esconder-se, é influenciar e ditar reações sem ser notado. Toda vez que é descoberto, no entanto, o eu-egóico, covarde e vazio, esconde-se nas sombras. Quando a luz da alma ilumina o demônio-ego ele se dissolve feito entidade de filme B. Todo peso no relacionamento é sintoma da doença egóica, porque o amor é leve - ultraleve - mesmo depois da tensão. Quando há amor e ocorre conflito, o conforto que sentimos depois, na reconciliação, é como o relaxamento que toma nosso corpo depois que sustentamos um asana difícil. Mas por que foi que falei tudo isso mesmo? Sim, o relacionamento. Ele pode nos levar a viver de acordo com a alma; ou pode nos levar a deixar que o eu-egóico cresça e conduza a carruagem do Ser para a tragédia. O outro nos ensina sobre perdão, generosidade, paciência. Ensina-nos inclusive a dizer não, a sermos assertivos. Ensina-nos até sobre desapego e sobre deixar ir. Quando a convivência já nada desperta de bom, é hora de ir ou deixar o outro ir. Neste mundo nada morre, nada nasce, tudo se transforma: o amor erótico, passada a tormenta do divórcio, se transforma em amor fraternal. Eros reveste-se de ágape. Em outras palavras, o amor é querer sempre ver o outro bem; é reduzir nosso tamanho para se realizar nas conquistas do ser amado; é doar-se. O resto é egoísmo, posse: o Diabo mesmo possuindo o coração da gente.
sábado, 4 de janeiro de 2020
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