Vai vendo como o Diabo é sujo: o cabra esconde segredo a vida e, quando está no fim, na quina do abismo; vem o encardido: revela. A gente olhando os velhinhos não imagina que. Pensa logo que a vida toda foram santos, mas qual? E o que era escândalo e tragédia numa geração; duas ou três depois, vira piada. Pois sim. Pelo certo. Não somos todos humanos? Foi, sim, escândalo quando minha avó fugiu com um primo de meu avô, cinquenta anos atrás. O velho, moço à época, percorreu caminho, chegou mesmo à divisa com a Bahia, em busca; nada. Depois voltou, trancou-se no quarto e nunca mais. Dizem que o choque foi tão que perdeu o tino. Tresvariou. Não era sempre; vezenquando. Lembro d’eu menino, com medo do velho, brabo, postado em montaria, gritando:
- Aquela mulher cagô minha vida!
Passava o tempo, passava. Recolhia-se. Depois que vovó fugiu, vovô trancou o quarto em que dormia com ela e ninguém nunca mais, só ele; até antontem, quando tia Maria. E hoje o velho seguiu, pro outro, em transparência. Mas sim, quando tia Maria abriu a porta e mostrou o quarto - eu junto - tudo estava em perfeito. O velho mesmo varria o chão, arrumava a cama, mantinha tudo como. Só que tinha um papel de parede muito mal colocado, o qual dali não era. Tia Maria puxou de uma ponta e foi arrancando, às pressas, tensionada. Eu peguei da outra e também. Quando descobrimos toda a parede, veio à tona um mosaico, mural, um relicário inteiro dedicado à mulher que o tinha abandonado no verão de meia oito. Era vovó sentada, de pé, deitada sorrindo e de vestido, de calça, em montaria. De tudo quanto é.
Vovô jamais recasara. Dedicou três quartos da vida ao sofrimento. A ausência da mulher que amou era ainda mais profunda que a presença dela quando. E conduzia seus passos
sábado, 4 de janeiro de 2020
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