No futuro não poderemos dizer eu não sabia: o golpista sempre conta com a ganância de sua vítima. O drama se repete como farsa. Há, no fundo de todo ser humano, uma dor, uma ferida, uma falta, uma saudade danada de não sei o quê. No passado, as religiões concebiam esse lugar como passagem para o sagrado; mas o tempo e a História, nós sabemos: penso, logo existo; cientificismo; materialismo rasteiro; Deus está morto; o homem – o homem – o homem; esquecemo-nos que a gente acontece é dependurado no Mistério. Por muito, a angústia foi o caminho para a fé; com o passar e a secularização de tudo, a riqueza tomou o lugar. Já não suportamos a falta e buscamos preenchê-la. Acontece que essa fresta é o lugar por onde ouvimos o sussurro sagrado e, abarrotá-la de, só nos faz ficar mais surdos e mais feridos. O capitalismo entendeu rápido a fenda e usou-a como lugar da oferta. Bastava oferecer ao cidadão algo que prometesse preencher este hiato que o "cliente" compraria. Acontece que tudo que se tem e se conquista não preenche o vazio; o qual é mesmo – e já – Deus, feito a foz de um rio, cujas águas se confundem com as do mar. Muitas Igrejas que aí estão não oferecem o sagrado; mas Deus como meio de se conseguir coisas bem mundanas. É uma mistura aloprada de livre mercado e religião, com o Estado servindo cão de guarda da propriedade. E aí acontece o absurdo de se rezar para pedir um carro melhor que o do vizinho, uma lancha, uma viagem ao exterior... e tudo isto é pedido em nome de alguém que foi torturado e morto. É desonestidade espiritual (e muita) da vítima. Vários líderes dessas Igrejas apoiaram isto que está no poder e levaram consigo seus fiéis, os quais abriram mão da liberdade para não ter a responsabilidade por seus atos, só que não. Jesus disse coisas muito simples e resumiu tudo num só mandamento: Amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo. Como alguém que defende a tortura e a morte pode se dizer cristão? Não é o Cristo que Bolsonaro defende é a propriedade. Toda a vida poderia ser o tempo de ajustarmos nossa conduta aos propósitos maiores que você pode chamar de Deus ou Humanidade; mas gastamos a vida querendo ajustar a conduta do vizinho que é gay, da vizinha que usa minissaia, dos moleques que ouvem funk. Amai ao próximo como a ti. Primeiro é preciso se amar, sem vaidade, reconhecer em si a dignidade de um ser que é - sem necessidade penduricalhos. A partir daí, reconhecendo em mim a ferida primeira, é fácil ver que o outro também vem ferido, precisando de abrigo e compreensão. Não tem erro e, se a coisa complicar, é só ficar ao lado dos mais pobres, dos injustiçados, dos mais fracos, dos perseguidos. Foi o que Jesus de Nazaré fez.
sábado, 4 de janeiro de 2020
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