sábado, 4 de janeiro de 2020

UM DEUS QUE DANÇA

Há uma frase que ressoa nos diários de Nijinski com a força de um Ritornelo: “Eu sou Deus!” A princípio, pode parecer apenas a afirmação de um doido. Nos manicômios, pululam cristos e napoleões. Só que não. (De qualquer modo, há muito sentido na loucura. Mas não aqui.) Por meio da Dança, Nijinski chegou ao Outro e não exatamente à loucura. O Outro é o que habita o feto e não muda, e não envelhece. O Outro é um olho amoroso. A fagulha divina e o gosto que levam a criança a admirar um professor de dança e detestar o mestre de matemática, ou o contrário. Em Nijinski, Deus mostra sua face bailarina. Chegar ao Outro é tirar a máscara e observá-la; ao mesmo tempo que a máscara também observa o Outro. Só então se percebe que o Outro não envelhece porque está sempre no presente e o presente é eterno; e o Outro não deseja, porque o desejo está sempre no futuro e o tempo não existe no fundo da Alma. O Outro é o umbral que une (e não separa) o imutável e a semente, o eterno e o temporal. O Outro é mesmo Deus em nós e deixá-Lo conduzir nosso corpo é estar em consonância com o modo pelo qual a Divindade se manifesta em nós. Em mim, o poema. No caso de Nijinski, a dança. O músico passa anos aprendendo a tocar um instrumento, quando a técnica se entranha, para ser artista, é o Outro quem tem de tocar. No momento em que o pensamento racional, egóico, atravessa, acontece o erro. O Outro é o que age no transe. E por que todos somos Deus? Porque o Tao está inteiro em tudo, no elétron e na totalidade do Universo, na bactéria e no leão. Deus não se abre. É como uma rocha. Não se pode abrir uma rocha. Por mais que se quebre, a essência da pedra se recolhe – inteira - em pedaços menores. Assim também, o Outro é Deus inteiro em nós e para além: sem contradição. Quando um ser humano muda a si mesmo e se deixa conduzir pelo Olho amoroso; quando ajusta o Outro e a máscara, ELE SE ILUMINA e afeta ao mesmo tempo a Consciência da humanidade inteira; porque a Divindade desconhece tamanho e limite. O Ser é ao mesmo tempo o fiel, o altar e a Divindade. Como é sereno o caminho quando estamos ancorados no Outro.🌻

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