sábado, 4 de janeiro de 2020

DU

Há uma praça em frente ao local onde trabalho – a Mãe Preta - e o Du vive nela. Às vezes, quando estou regando as plantas, ele para, puxa assunto, comenta a respeito da sabedoria da natureza: “Tudo que a gente cuida, se desenvolve” – disse outro dia. As coisas que diz são muito coerentes e, por vezes, até sábias. A gente quase não acredita que as palavras estejam saindo do quixote à nossa frente. Como disse Apolônio sobre Hamlet: “parece loucura, mas há método”. O método do Du é estar contente; tanto no sentido da alegria, como no de estar contentado. Ele nada espera: existe apenas e há muita dignidade em existir e, essa sensação de ter tudo que se precisa é o dínamo da felicidade. Como eu, o Du gosta de escrever: em cadernos, guardanapos, jornais velhos, sacos rasgados de pão. Quando consegue tinta, escreve no chão da praça, nas árvores, no asfalto, pelas calçadas ao redor. Organiza o interior por meio da palavra e da ordem. Cada coisa em seu devido lugar. Parece bagunça, mas há método. Tudo o que ganha ou acha tem o canto certo para geração e circulação de energia, produção de beleza. Tem um senso estético singular e apurado: “A roseira tá bonita, Professor, mas se tivesse pintado o pneu de branco ficaria mais bom.” Du junta lixo, mas varre a praça. Quando ganha comida, come. Quando não ganha, pede. Às vezes, compra um corote de pinga e se embriaga; outras vezes, quando a alegria extrapola os vasos, amarra garrafa num barbante e corre pela praça fazendo embaixadinhas. Como é dezembro, enfeitou seu cafofo com um Papai Noel de antenas: “É alienígena, Professor!” Descobriu o segredo, ser – E SÓ - já é motivo para alegria e dignidade. “E tem tanta coisa bonita pra gente ver! E mesmo as feias têm seu encanto!” Eu observo, escuto, aprendo.
- Tome aqui, Du, cincão, mas não vá encher a cara de pão, hein?
- Boa, Profe, Papai Noel chegou mais cedo.
E aí ele tira uma única lente escura do bolso e ajeita no boné para a foto.
- Tô bonito?
- Demais da conta.
Condição de maluco; ofício de poeta. Os loucos salvam diariamente o mundo.

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