sábado, 4 de janeiro de 2020

VÍTIMAS

Não preciso ser perdoado
Às vítimas conheço bem
Eu as vi, no olhar da criança a cuja festa de aniversário ninguém foi
Eu as vi, nas mãos dadas dos rapazes negros espancados
Na mãe abraçada ao filho morto para sempre
No desmantelo do funcionário público entre coisas defuntas:
Uma cadeira, uma mesa, um arquivo, computador, um extrato bancário
A garrafa de vinho fechada no armário
E o cão atropelado no acostamento.
As vítimas, eu as conheço
Foram maltratadas no amor e quando se conheceram já era tarde demais
Estavam feridas, céticas, vazias de sonhos e esperanças
As mãos ainda teciam a fina colcha
Mas o coração estava exilado, oco, despejado na latrina feito penico de velho
E os amigos já não as reconheciam, posto que preferiam o pus à companhia
Eu poderia falar de Deus e da alma
Mas cheguei tarde e a porta estava fechada
As ruas vazias
A festa tinha acabado e eu era um canhão ainda quente do disparo.
Tanto e tanto e ainda é nada
As vítimas estão no transporte público
Diante dos juízes protocolando divórcio
Ouvindo Janis Joplin aos quarenta dentro de apartamentos
cujos alugueis não foram pagos
As vítimas gemem, tremem, soluçam
Reconheço-as pelo olhar
pelos cabelos ralos
Os corpos longe dos padrões estabelecidos
Ora gordos demais, ora magros ao extremo
Algumas vítimas desistem, outras lutam; terceiras ainda anseiam
O quê?
Lápis de cor, globo de espelhos, uma dança sem futuro
As vítimas descobriram há pouco que o amor é vingança,
ódio fantasiado para o carnaval
E nada existe além da solidão. Nada.
Não, não sou algoz
E não preciso ser perdoado.

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