A gente sabe que a única coisa permanente é a mudança, que para que o novo nasça é necessário que o velho morra e, ainda assim, se pergunta: precisava doer tanto? E, às vezes, quando bate o vazio de domingo, a gente não sente necessariamente saudade da pessoa, mas do amor, do começo, daquela magia que é encontrar alguém e estar pleno e ficar deitado o dia inteiro, fazendo amor, comendo chocolate e conversando; comendo chocolate, conversando e fazendo amor... Misturados num tanto de suficiência e compreensão. E aí, quando a gente conta uma coisa feia que fez e fica com medo de perder, a pessoa amada sorri e nos abraça e acolhe nossa sombra, tanto quanto acolhe nossa luz. E, então, o tempo. Os erros. A gente fere mais quem está mais perto: o trânsito, os prazos, as dívidas, o álcool, as frustrações, presepadas, pressa-pressa-pressa; tudo isso acaba tendo por destino quem caminha ao lado. E a gente, acomodado, nem percebe. Quando ocorre o divórcio, a gente se pergunta onde a magia do início foi parar? Não era mentira aquela vontade de ser bom e se doar, aquela gana de ser todo para o outro. Uma mistura de culpa e raiva se instala e nos sufoca. Os dias estendem-se. Uma única segunda-feira parece durar todo o mês de agosto e chove. Sempre chove. Mas a chuva, não percebemos, faz parte da bolsa que envolve o bebê. No útero do tempo, o Novo cresce. As coisas se transformam e o Amor muda. Como um grão, o amor tem de morrer pra germinar: morre e nasce trigo, cresce e morre pão – e o pão alimenta o homem que semeia outra vez a terra. Tudo se movimenta em espirais! A gente revê o passado e percebe o quanto foi bom. Aquilo que ainda outro dia era mágoa, torna-se ternura: amor de irmão. E a gente quer ver o outro bem; quer que ele realize os sonhos, que obtenha reconhecimento e dinheiro, que encontre alguém bom. Aquela que era amante é agora nossa irmã. Sexo a esta altura seria incesto. Por outro lado, a gente fica feliz em saber que é parte da vida um do outro. Morta paixão, o amor ganha contornos definitivos e o coração se abre para novas flores. Cada casal é único. O jardineiro é o mesmo, mas rega de modo diferente as tulipas e os girassóis. O coração rejuvenesce, reveste-se de véu, esquece o medo de amar de novo. Tudo se movimenta em espirais! E lá vamos nós. Estamos vivos e a alegria nos acena vestida de bruxa. Sem mulher, o homem fica órfão.
sábado, 4 de janeiro de 2020
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