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sábado, 17 de dezembro de 2016

ALEPPO, CONCRETO E OUTRAS QUEBRADAS

G.K. Chesterton, pensador conservador inglês, dizia que "o perigo de o homem deixar de acreditar em Deus era começar a acreditar em qualquer porcaria: o concretismo, por exemplo." Não sei como ele previu o concretismo (delimitemos no registro do poema) já que morreu antes, em 1934; mas estes gênios - no sentido do romantismo - têm o órgão de vidência aguçada. Outro dia, por conta da morte do Gullar, e de uma postagem minha, houve aqui uma arenga danada. Pois bem, volto a ela, porque a resposta boa, pra mim, só vem depois, tenho o raciocínio lento. Na ocasião, um dos contendores. Homem ilustre, ilustrado e indignado colocou o vídeo acima em um de seus argumentos. Como que pra intimidar. Você sabe com quem está falando? Olha o Lattes desse Campos. Bem, tô cagando pra isso. No vídeo, tem o Haroldo de Campos falando umas bobagens. Sempre desconfiei que esses concretos tinham pés de barro, agora tenho certeza. Não que eu fique julgando cada palavra de um palestrante. Mas, quando o sabichão confunde Newton e Einstein logo de cara, depois diz que conheceu fulana "pela primeira vez", a gente começa a desconfiar. O vídeo só corrobora o que eu dizia, Haroldo de Campos não é poeta, o Físico aí, o tal Menezes, durante toda a entrevista é muito mais poético que ele, ao comparar o amor à poesia e ao trazer a lembrança de Vanzolinni, por exemplo. O representante do poeta fica sem palavras, é um robô da poesia. Na verdade, Haroldo é o anti-poeta, a anti-poesia. A diferença entre ele e João Cabral, é que um é um poeta magro, econômico, revolucionário e o outro é um charlatão rechonchudo, se passando por magro. Quer dizer que sabe de tudo, faz pose de que sabe de tudo; mas tudo nas coxas, soltando as maiores idiotices, atolado de leituras (superficiais, é bom que se diga) e atrofiado de sentimentos. Cabeça enorme, coração minúsculo. Cita Pessoa, O fingidor, mas se esquece do verso "a dor que deveras sente", porque a carapaça estética nunca deixou que ele sentisse coisa alguma. Um poeta de sentimento atrofiado é de lascar. E o que diz sobre Baudelaire e Mallarmé, foi dito por pelo menos uma dúzia de alemães e franceses antes, qual é "donc" (é importante o "donc", pois é ele que Mallarmé tenta pensar em diálogo com Descartes: Je pense, donc Je suis) a novidade? Outra coisa, esse papo de superar o discurso: 1º - em arte não existe superação, a física quântica pode ser mais acertada que a newtoniana; mas a pintura de Mondrian não é maior que a de Bosch ou Goya. 2º - Nada é superado fazendo-se pior. 3º - Não superaram o discurso, mas o inflaram, uma vez que, para que as palavras dispersas na página fizessem algum sentido, foi necessária toda uma construção conceitual ensaística. 4º - Quem superou a palavra, o discurso, pela via da própria palavra, foi Clarice Lispector. A palavra é uma forma pequena para um bolo grande demais, Clarice transformou a própria forma em bolo. Começo a desconfiar até das traduções, os malandros diriam recriações, para que não se possa contestar. O corvo por Fernando Pessoa, bate O corvo do Haroldo sem fazer força. Enquanto isso, em Alepo e em outras quebradas, os pais estão matando as filhas, antes que elas, além de mortas de qualquer modo, sejam também estupradas, sodomizadas, torturadas. Todo esteticismo é fútil. E não me venham falar que só a forma revolucionária faz o poema revolucionário. O poema nada pode diante do horror. Que pode uma flor diante do matadouro?
 O mediador da coisa ainda é o Cortela, o dos dedinhos: "Posso, mas não quero, quero, mas não devo, devo mas não pago." E lá vem ele sério...

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

CARNEIRO, CONSERVADOR E COPEIRO II – A MISSÃO

Outro dia escrevi aqui uma crônica sobre o Carneiro, o copeiro conservador da padaria que frequento. Devo confessar que eu mesmo, em algum nível, criticava o Carneiro, sua interminável ode ao trabalho, 18 horas por dia; mas, quando os amigos postaram comentários criticando também o Carneiro, algo me incomodou. Não sabia bem o quê. Refleti e cheguei à conclusão de que fiquei incomodado porque o Carneiro é um cara gente-fina, uma boa pessoa; sempre disposta a ajudar o próximo, na medida do possível. A SURPRESA: é possível ter ideias conservadoras e ser uma boa pessoa! Durante a ditadura militar, por vias diametralmente opostas, os militares acreditaram que sabiam o melhor caminho para o país e, aos que fossem contra tal caminho, a alternativa era a bala. Com o fim da ditadura, em algum nível, a esquerda pegou para si não a bandeira ideológica, mas a bandeira moral do militarismo; algo quase religioso. Quem é de esquerda é um ser humano melhor, mais altruísta, pensa mais no outro, no coletivo, põe o dinheiro em segundo plano e, todos sabemos, nem sempre é assim. Talvez a grande decepção de parcela da população com a esquerda que chegou ao poder é exatamente a decepção com o fato de que ela cometeu os mesmíssimos crimes que combatia: soou hipócrita. Mesmo com as melhorias conquistadas, não foi suficiente. Ainda pensando no Carneiro, outra ideia que me veio à mente, foi o seguinte: nós, da esquerda, temos pouco poder de convencimento. Somos bons de embate, debate e de briga, mas não conseguimos convencer o cidadão comum, o mais pobre, aquele que trabalha tanto que não tem tempo para pensar. Geralmente, nós o confundimos com o Hulk da Avenida Paulista, com o Alexandre Frota e partimos para o confronto, quando seria o momento de um diálogo desarmado.
                Sinto-me melhor agora que, de algum modo, situei o Carneiro em seu devido lugar, mas ainda tenho de citar um episódio no qual ele foi protagonista para demonstrar o quanto este cara tem de coração. Foi na época do meu divórcio, um dos divórcios mais complicados do planeta, que por fim pode ser resumido na fórmula: divorciaram-se e foram felizes para sempre; mas, antes disso muita água rolou debaixo da ponte; fica para outra oportunidade. Sempre tive dificuldade pra dormir e nessa época procurei um psiquiatra que me receitasse algum medicamento. Às vezes atravessava duas... Três noites sem dormir, mesmo fazendo exercício e trabalhando. Não tinha jeito. O médico receitou dois comprimidos de sertralina depois do almoço e um comprimido de diazepam 2 mg antes de dormir; severamente advertiu:
                - Não beba!
                Eu, entretanto, continuava deprimido, até dormia, mas muito mal, tinha pesadelos. Criou-se um abismo entre mim e o mundo, entre mim e os outros, entre mim e o futuro. Num repente, tinha perdido o compromisso com a vida.
                Então, numa noite entrei na padaria. Um amigo das antigas, que estudou comigo desde a pré-escola até o ensino médio estava lá tomando cerveja. Me chamou. Sentei junto. Tomei um guaraná, uma brahma sem álcool e, quando vi, estava na cerveja normal. O amigo foi embora e eu ainda pedi mais uma ou duas. Nem preciso dizer que deu merda. Eu sou o Rei - nem o príncipe, nem o conde - o Rei das Cagadas. Fiquei ruim, as pernas deixaram de obedecer. Um sono insuportável. Moro perto da padaria, na mesma rua. Paguei a conta e fui embora, mas não estava mesmo bem. O que fez meu amigo Carneiro, conservador e copeiro? Pediu permissão ao patrão e me levou até em casa.
                Fiquei uns dias sem aparecer, envergonhado.
                Tempos depois, num domingo, entrei na padaria para comprar um frango assado.
                - Olha aí a Bela Adormecida – brincou o Carneiro com o cara do caixa.
                - Fiz merda, pisei na bola, obrigado aí ter me acompanhado até em casa.
                - É perto, mas tem de atravessar a avenida, né professor, do jeito que tu tava, podia ter batido as botas.
                - Devo uma.
                - Pois não fique devendo, pague logo. Hoje tem culto na Igreja. O que é que tu vai fazer? Nada que eu sei, vai assistir o Faustão. Bora lá fazer uma visita.
                Querer ir eu não queria, mas aceitei.
                Às 18:30 em ponto Carneiro e família passaram em casa e fomos ao culto.
                Em frente à Igreja, todos estavam extremamente bem vestidos. As mulheres com suas melhores roupas, os homens de terno e gravata, barbas e cabelos bem feitos. Além de ser o lugar de sua religião, aquele era o lugar de sua diversão, de estabelecer vínculos, conversar, ver as pessoas. A outra opção era o boteco, e os que se enfurnavam no boteco, destruíam suas famílias, batiam em suas esposas. Carneiro mesmo se orgulhava de dizer que estava havia dezoito anos sem beber uma gota de álcool. A Igreja era saudável e a fé em Deus dava um sentido às suas vidas. Como a modernidade aboliu a verdade transcendente, Deus passou a valer como potência do falso. Existindo ou não, o fato é que torna a vida mais suportável, ordenada. E eu, com todas as minhas leituras, minha curiosidade, meus estudos, onde estava? Entregue ao caos, com um pé no abismo e outro na casca de banana. Por todo esse sentido conferido à vida - Deus se preocupa até mais com os menores - cobrava-se um dízimo, pois nada neste mundo, seja espiritual ou material, é de graça. Mas eu também não pagava o psiquiatra? E as pessoas não pagam psicanalistas?
                Quando o pastor começou a falar, percebi que o discurso do meu amigo Carneiro não era necessariamente dele, mas da Igreja. Assim como muita gente, quando fala, nada diz de próprio, mas tagarela o discurso do partido, da universidade, dos “formadores de opinião”. Lembrei da música do Paulinho Tapajós: Eu tantas vezes me sentei sozinho para jantar / Comprei milhões de pensamentos pra não ter de pensar. Eu estava irremediavelmente arruinado. Tinha perdido a capacidade de auto-ilusão. Provara da árvore do conhecimento. Não era uma escolha, para mim, eu já não podia optar pela Igreja. Tinha perdido o órgão da fé.
                Depois do culto, comemos alguma coisa na cantina da Igreja e o Carneiro me deixou em casa.
                Mesmo tendo tomado o remédio, não conseguia dormir. Imaginei um país dominado por Igrejas evangélicas. As mulheres, todas, queriam casar e ter filhos, três ou quatro, ao contrário das mulheres “seculares”. Basta uma projeção simples. A Igreja oferecia o que os seres mais humanos almejam: sentido. Dane-se a liberdade, ninguém quer ser livre, ela, a liberdade, só traz problemas e responsabilidade. Além disso, havia o sentimento de fazer parte, as vidas estáveis. A contrapartida? O machismo, a homofobia, o preconceito, o dízimo...
                Não tenho muitas certezas nessa vida, mas uma percebi no dia em que fui à Igreja com o meu amigo Carneiro, conservador e copeiro – nessa ordem: o poder político das Igrejas evangélicas está apenas começando e eles já têm uma bancada respeitável no congresso, governadores, prefeitos, canais de televisão e outras mídias e pessoas que têm a certeza de agir de acordo com o que Deus quer e Deus é a verdade contra a qual não há argumentos.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

BERGMAN E O IDIOTA

Sou cinéfilo, vejo de tudo: de Chaplin a Michael Haneke, com um bom filminho de terror no meio para quebrar o gelo. Admiro os anjos de Win Wenders, as revoluções de Hitchcock: matar a mocinha com trinta minutos de filme, fazer todo um filme numa só tomada; revejo sempre Jules e Jim e Os incompreendidos; Goddard, o primeiro; e Buñuel, e Tarkóvsky, e Mallick, e Peckinpah, e Ford. Agora, o meu cineasta predileto é o sueco Ingmar Bergman, não só pelo modo como filma um rosto, mas por sua visão de mundo, sua descrição angustiante das relações humanas. Sou cinéfilo, já disse, vejo de tudo, mas não tenho qualquer critério, não ficho nem catalogo os filmes a que assisto. Às vezes, durante uma conversa, misturo trechos de filmes distintos, confundo-me; quando vejo, estou citando passagens da minha vida como se fosse um filme, um livro. Talvez nisso consista a criação, na absorção do caos em contraponto à organização do pesquisador. Tudo vai sendo absorvido e acaba por repousar no fundo do pântano. De repente, vê-se um cego mascando chicletes e uma pressão insuportável, que nos vem das entranhas, empurra um mundo novo à tona: é a epifania, ou a inspiração. Impossível ao artista não fazer arte neste momento. Deus que me livre dos operários da arte, daqueles que; faça chuva, faça sol; escrevem das 8:00 às 17:00. Estive em algumas firmas e posso garantir que essa é a disciplina da fábrica, a disciplina da arte é outra.
Mas estou me dispersando, quero falar de Bergman, mais precisamente de O Sétimo Selo, mais precisamente ainda de um aspecto do filme: o idiota. Em Bergman há a esperança, às vezes, mas ela está sempre com o idiota, com os simples e pequenos, com os artistas mambembes. Em sua autobiografia, A Lanterna mágica, Bergman descreve o início de seu amor pelo cinema. Na infância, quando cometia qualquer travessura, seu pai, um rígido Pastor calvinista, o trancava num armário escuro. Começava aí o medo que exala de todas as películas bergmanianas: medo da morte, da doença, da falta de amor, de fantasmas. O menino, com o tempo, ganhou uma lanterna e passou a levá-la consigo, às escondidas, para o armário e com ela acesa sobre o movimento das mãos projetava sombras na parede, o que o distraía e afastava o medo; geralmente pensava em espetáculos de circo, em palhaços, carrosséis, em coisas alegres que espantavam o terror. Começava aí o amor pelo cinema, a admiração pelo palhaço, o idiota, o artista mambembe. Desde Noites de circo à obra-prima O sétimo selo, a redenção, quando há redenção, encontra-se do lado do idiota.
Bergman não foi o primeiro a dar ao idiota o status do salvador, do portador da esperança. Já na Bíblia, o Cristo exorta-nos para que sejamos como crianças, para que ofereçamos a outra face, não guardemos ressentimento. E Dostoiévski criou o príncipe Mishkin, de O idiota, na tentativa de representar o ser humano perfeitamente belo e seu naufrágio nos escolhos da feiura humana. Há ainda o Bartleby, de Melville e o Jesus de O anticristo, de Nietzsche.
Segundo Peter Solterijk, o idiota é um anjo sem mensagem e “Mesmo sua entrada tem o caráter de uma aparição – não porque ele representasse neste mundo um clarão transcendente, mas porque, no centro de uma sociedade de fazedores de papéis e de estrategistas do ego, ele encarna uma inesperada ingenuidade e uma desarmadora benevolência. Quando ele fala, não é jamais com autoridade, mas unicamente com a força de sua franqueza.” N’O anticristo, que seria muito melhor nomeado se se chamasse anticristianismo, ou antipaulo, Nietzsche, entre uma farpa e outra, deixa escapar certa sedução pela falta de ressentimento do personagem Jesus. Ainda segundo Sloterdijk: “Sua moral é sua incapacidade de golpear de volta. Esse é o traço que deveria interessar Nietzsche na suposta idiotia de Jesus, porque ele encarna de maneira pueril, o ideal da vida elevada e sem ressentimento – não, é claro, do lado do Eu ativo, mas do acompanhante que encoraja e completa.” Deixemos de lado o caso de agir de acordo com a vontade de potência que caracteriza a moral do Senhor e é defendido por Nietzsche, não é o que nos interessa aqui.
            Voltemos ao Bergman, mais precisamente ao Sétimo Selo. No que se refere à idiotia, a obra pode ser vista como um paralelo sombrio do Dom Quixote de La Mancha, outro idiota, no sentido que estamos construindo neste artigo. Remetendo ao Dom, temos o cavaleiro e seu escudeiro como contrapontos da forma de encarar o mundo. Da mesma maneira que no livro de Cervantes, o pragmatismo crítico do escudeiro revela um conhecimento do mundo distante dos questionamentos e indagações do cavaleiro sobre a morte e o sagrado. Com uma visão ácida, porém justa, o escudeiro não procura respostas, já as possuí pela experiência de vida, portanto não tem medo de enfrentar a própria morte. Assim como Sancho, sabe transitar entre o mundo da taverna, das brigas, da peste, da morte e o mundo quase sublimado e filosófico em que está o cavaleiro.
            Em todos os seus filmes, mesmo os menores, espanta-nos a coragem com que Bergman enfrenta e faz autópsia dos nossos sentimentos mais sombrios. Desde as irmãs que se recusam a entrar no quarto da irmã enferma - tarefa executada por uma empregada que, depois da morte da moribunda, é despedida - ao pai escritor, que espera a total deterioração mental da filha para usar em sua arte.
            A maioria dos filmes do diretor sueco termina mal, tal qual um rito – outro Bergman tremendo - sem esperança. Não é o caso d’O Sétimo Selo. No filme, a humanidade inteira é redimida e salva da caçada da morte pela família de artistas mambembes. São os únicos que escapam. Na cena final: amanhece, os pássaros cantam, a carroça está parada junto ao mar com o pai, a mãe e o bebê. De repente, o pai para, olha o horizonte e diz: “Mia, eu os vejo, Mia – toca-se um tambor – Lá no céu tempestuoso. Todos eles, o ferreiro e Lisa, o cavaleiro, Raval, Jon e Skat e a severa morte os convoca para dançar. – aqui a influência sempre presente de Strindberg: A dança da morte – Quer que todos deem as mãos para formar uma longa fila. A Morte vai na frente com a foice e a ampulheta... Mas Skat vai atrás com sua lira. Eles vão dançando, se distanciando do sol... Em uma dança solene. Dançam rumo a escuridão e a chuva cai em seus rostos... Lavando as lágrimas salgadas da face.” Os pássaros cantam o pai permanece olhando embasbacado o horizonte, até que a mulher o restitui à realidade: “Você e suas fantasias.” O bebê balbucia alguma coisa. O homem pega as rédeas e conduz a carroça rumo ao futuro: pleno de esperança, mas sem esquecer os mortos que ficaram pelo caminho.
Agora que termino este texto, lembrei de duas coisas, o bobo de Rei Lear e o romance Pedro Páramo, de Juan Rulfo, mas eles ficam para uma próxima ocasião. Viremos a ampulheta. Até breve.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Empoderamento, ligerie masculina e esquerda à venda nas lojas de butique

Desde sempre é sabido que a linguagem não é neutra, ou ela é fonte de poder ou de resistência. Deleuze e Guattari, principalmente em seu livro sobre Kafka, falam do poder de uma literatura menor, que é o uso que uma minoria faz dentro de uma língua hegemônica, caso dos judeus no Ovo da Serpente kafkiano, dos negros nos E.U.A, ou nas periferias brasileiras. A língua é desterritorializada, arrastada para longe de seus dogmas gramaticais e semânticos. Assim, já a língua e a literatura são uma máquina de guerrilha contra o Poder instituído. Recentemente, tenho visto amigos substituírem os gêneros masculinos e femininos por @ ou X. Escrevem: amigxs (o que me parece algum plano diabólico da Xuxa que desde os anos 80 vem mandando mensagens subliminares do capiroto quando rodamos seus discos ao contrário), ou amig@s (o que me lembra coisa do Bill Gates, Zuckerberg, ou de algum desses magnatas manipuladores da internet, do mundo virtual). Pergunto então, se o uso da palavra é tão importante como meio de luta e fortalecimento, por que o uso do termo EMPODERAMENTO? O poder sempre esteve ligado a tudo o que é escroto e desigual, de Nero a Hitler, dos militares às subgerentes Dorianas? Será que o necessário é o poder ou a emancipação, a igualdade, a arte de recusar e resistir ao poder? Todas as traduções mais à esquerda de Niezstche  preferem o termo vontade de potência, pois potência é potência para agir, ao termo vontade de poder. O medo de amar é o medo de ser livre.
Assim como a linguagem é viva, nunca neutra, e o estilo é justamente o modo como alguém livremente faz uso da língua. Em moda, o estilo é o modo como a pessoa faz uso das roupas. Sempre tive certos conceitos prévios quanto ao mundo da moda, mas que se confirmam mais e mais como sólidos preconceitos contra o glamour que envolve até a semana da moda de Jacareí. A moda quer constituir o sujeito a partir da exterioridade, e boa parte das pessoas acaba por se constituir assim: pura aparência. Livro? O pequeno príncipe; que, a bem da verdade, é um baita livro; mas será que leram ao menos este mesmo? Falo tudo isso pra chegar ao Liniker, rapaz até talentoso que vi na TV outro dia, mas que precisa usar saltos finos de 15 centímetros, os quais acho uma agressão a qualquer pé – masculino ou feminino – para aparecer, tirar selfies com desconhecidos na rua? Os New York Dolls, Bowie, o próprio Caetano já não quebraram essas barreiras nos anos 70? Será que se ele tocasse de tênis, calça e camiseta seria um artista menor? Eu prezo o conforto. No caso da roupa, calça de agasalho, ou jeans, tênis, ou chinelo e camiseta. Sinto em tudo o golpe da cotovelada para aparecer na TV, na Net, e, de fato, só aparecem mesmo os pavões. É fácil andar vestido de mulher na Paulista, qual a novidade? Difícil é para o menino de 15 anos, negro, na favela, colocar uma minissaia entre pastores e traficantes. Hoje existem até falsos gays no meio artístico, tudo em prol de seus minutinhos de fama. E quando aquela menina foi estuprada por dezessete traficantes, apareceu um monte de marmanjo de batom com foto no perfil dizendo “fomos todos estuprados”. Porra nenhuma! E, ainda ontem, abri o facebook e estava lá a matéria sobre a lingerie masculina, cujo aumento de vendas foi absurdo de um ano para cá: um calcinho apertadinho e rendado custando quase R$ 80,00. (Que será que o Beckham anda fazendo da vida?). Fiquei imaginando meu tio, roceiro em Tatuí, 1,85, 120 quilos com uma daquelas. Por mim, o melhor seria viver feito índio, todo mundo nu, a não ser nos dias frios, mas cada um se veste como quer; por mim, foda-se. O caso é que em tudo se formam clubinhos. E hoje, se você não é do clubinho da chuquinha e salto alto, você é do clubinho do Bolsonaro-Alckmin-Dória e, Deus me livre, prefiro aderir ao clube da cuequinha de renda; o qual, a bem da verdade, outro dia até linchou virtualmente um menino porque escreveu um texto - ingênuo inclusive - sobre ficar observando as meninas chupando laranja no restaurante da USP. Chamaram-no pervertido. Achavam-se melhores que o menino, donos do Bem e do Belo. Em menos de 24 horas os policiais das redes sociais – gente inteligente, universitária  – prenderam, julgaram e bloquearam o rapaz. E são todos do clube do mesmo clube. Lutam todos por um mundo mais justo na Paulista.
E, pensando em esquerda, soube recentemente, de fonte fidedigna, que uma famosa filósofa, feminista, articulista da revista cult, fundadora de partido e tudo faz palestras para empresários. Só numa palestra para grã-finos amigos de um dos donos da Sadia - o bom verniz cultural - embolsou um cheque que vale mais que meu salário anual. Antigamente, um comunista matava o melhor amigo, morria sem borrar as calças por causa da Causa. Os princípios sempre à frente das personalidades. Eram idiotas, achavam que mudariam o mundo, mas eram idiotas honestos. “Isso foi no tempo do stalinismo e sabemos quanta gente o stalinismo matou!” Concordo, mas foi Stalin quem parou Hitler. Só um psicopata pode entender como pensa o outro e, além disso, havia o Ideal, havia uma crença. Hoje, todo ideal é um adorno ao EU. A causa, mesmo sendo coletiva é individual, é sempre o mesmo euzinho querendo tirar selfie com desconhecidos na Henrique Schaumman – pra não ficar sempre na Paulista. Nada de novo sob o sol - nem as perguntas aos entrevistados no Metrópolis - tudo é vaidade. Nossa esquerda é um produto do capitalismo, um fetiche à venda em lojas da Daslu e nem se dá conta disso.

sábado, 19 de novembro de 2016

Cartas: Rilke, Sabato, Vincent

Procuro palavras que sejam pedras, armas; pois é duro o que tenho a dizer: não resta amor ao próximo quando o ódio a si mesmo ocupa por inteiro o coração. Reviro livros em busca de janelas. Lá fora impera o deserto e a vulgaridade. A futilidade é o maior escudo contra o nascimento. Pode-se muito bem chegar aos 90, 100 anos sem nunca ter nascido. Para nascer é preciso um mínimo de sensibilidade, de inteligência. E a maioria das pessoas opõe sua mais pungente energia contra o pensamento. Dão aulas, dirigem automóveis, viajam pra Itaquaquecetuba ou Paris e morrem de velhice sem jamais ter sentido o desespero e o júbilo de um único pensamento. Mesmo o que se sente é pensado - por outro, claro: o partido, a plataforma, o jornal, a TV, o formador de opinião, o teórico francês -  cheiro de formatação e ovo estragado.
Abro Cartas a um jovem poeta , como faço quase todos os dias em que não me sinto bem, e Rilke dispara a verdade transcendental: “o verão há de vir. Mas virá só para os pacientes, que aguardam num grande silêncio intrépido, como se diante deles estivesse a eternidade. Apreendo-o diariamente, no meio de dores a que sou agradecido: a paciência é tudo.” “A carne é um peso difícil de carregar. Mas é difícil o que nos incumbiram; quase tudo o que é grave é difícil: e tudo é grave.” “Amar também é bom, porque o amor é difícil.” Leio o livro, descanso o livro. Medito: sem dúvida se trata de um grande tratado sobre poesia/vida; mas, caralho,  trata-se de uma poesia de anjos, de serafins, de quem nunca foi escorraçado, de quem nunca teve de pedir dinheiro, humilhar-se um pouco para poder sobreviver: tudo ali e nobre, grave, transcendental.
E, então, me lembro de outras cartas. Aquela de Sabato a Un querido y remoto muchacho que, em outros tempos, eu costumava levar dobrada no bolso da calça, como um amigo que se quisesse ter por perto nos momentos sombrios; “Te desanimás porque no sé quién te dijo no sé qué. Pero ese amigo o conocido (¡qué palabra más falaz!) está demasiado cerca para juzgarte, se siente inclinado a pensar que porque comés como él es tu igual; o, ya que te niega, de alguna manera es superior a vos. Es una tentación comprensible...” “ Es entonces cuando además del talento o del genio necesitarás de otros atributos espirituales: el coraje para decir tu verdad, la tenacidad para seguir adelante, una curiosa mezcla de fe en lo que tenés que decir y de reiterado descreimiento en tus fuerzas, una combinación de modestia ante los gigantes y de arrogancia ante los imbéciles, una necesidad de afecto y una valentía para estar solo, para rehuir la tentación pero también el peligro de los grupitos, de las galerías de espejos. En esos instantes te ayudará el recuerdo de los que escribieron solos: en un barco, como Melville; en una selva como Hemingway; en un pueblito, como Faulkner.”  As palavras não necessitam paráfrases: o talento não basta, é preciso coragem para dizer tua verdade, tenacidade para seguir adiante. Fé e descrença. Modéstia ante gigantes e arrogância perante os imbecis. O perigo das panelinhas, que cozinham em fogo brando sua arte de dondocas. Sabias palavras.
Mas de todas as cartas que li, nenhuma me dói e me entende mais profundamente que uma carta de Vincent Van Gogh, ao irmão Théo em Março de 1880. Nesta data, Vincent era nada. Sequer tinha começado a pintar e acabara de ser afastado de suas funções como Pastor em uma Igreja para mineiros, na qual vivia em situação pior que seu rebanho. Para começar, aquele que viria a ser o maior de todos os pintores, agradece, não sem incômodo e vergonha,  os cinquenta francos enviados  pelo irmão mais jovem e diz que preferiu afastar-se de todos, da família inteira, porque sentia como se tivesse se tornado um fardo. “O que para os pássaros é a muda, a época em que trocam de plumagem, a adversidade ou o infortúnio, os tempos difíceis são para nós, seres humanos.” Não se trata de um espetáculo bonito e não é algo que se faça em público, a muda humana. Vincent prefere cordial compreensão e uma distância amena. Na sequência, Van Gogh aborda seu comportamento difícil, a impulsividade, as paixões. Afirma que age depressa demais, atabalhoado demais. Sempre que releio a carta, sinto como se estivesse falando de mim. Estou sempre pendurado entre a agressão e o remorso. Nunca consegui agir como adulto. E Vincent, que ainda não se decidira pela pintura, fala dos livros, de sua paixão por eles e da pintura e do quanto todas as artes têm em comum. Fala da impossibilidade de continuar na universidade. A partir de sua “melancolia ativa”, Van Gogh lê, lê de tudo, instrui-se. A pergunta crucial que Vincent se coloca neste momento é: “no que eu poderia ser bom?” Manoel de Barros diz em algum lugar que o poeta não serve pra nada, tirando-lhe a poesia é como um trapo velho. Também tenho essa sensação e também me pergunto em que diabos poderia eu ser útil? Nunca consegui fazer quase nada bem a não ser esta ânsia de “sofrer as atrocidades dos poentes.” Por último, faz a súplica que atormenta a alma do futuro rótulo de serviço de banco (Santander Van Gogh –VIP): “Ficaria muito contente se de alguma maneira você pudesse ver em mim mais que um vagabundo.” É essa ânsia por compreensão, por acolhimento, por colo que estraçalha o poeta, o artista. Veja bem, Vincent continua sua explanação: existem vagabundos e vagabundos. “Uns o são por preguiça e fraqueza de caráter.” Mas há outro tipo de vagabundo, no qual me encaixo ao lado de Van Gogh, que é “o vagabundo que é bom apesar de si, que intimamente é atormentado por um grande desejo de ação, que nada faz porque está impossibilitado de fazê-lo, porque está preso como que por alguma coisa, porque não tem o que lhe é necessário para ser produtivo, porque a fatalidade das circunstâncias o reduz a este ponto...” [em que pensar é sempre não poder ainda pensar - BLANCHOT]. “Um pássaro na gaiola durante a primavera sabe muito bem que existe algo em que pode ser bom, sente muito bem que há algo a fazer, mas não pode fazê-lo. O que será? Ele não se lembra muito bem. Tem então vagas lembranças e diz para si mesmo: “Os outros fazem seus ninhos, têm seus filhotes e criam a ninhada”, e então bate com a cabeça nas grades da gaiola. E a gaiola continua ali, e o pássaro fica louco de dor”. Nós, os pássaros da gaiola, nem sempre sabemos dizer o que nos encerra. “Mas ele tem tudo.” – dizem os outros pássaros e, no entanto, somos a própria derrelição, a ferida purulenta. E então já vem a ideia: uma única e impossível ideia: queríamos cantar o impossível, o canto angelical, celestial; queríamos, com o nosso canto, acariciar o coraçãozinho sofrido dos outros pássaros. Coltrane dizia que gostaria de tocar para um amigo doente e curá-lo apenas com sua música. É essa a espécie de vagabundo que Vincent era, que sou, que Kerouac era: vagabundos do Absoluto. Não apenas poetas, pintores, ou músicos; estes existem demais no mundo. Queríamos ser profetas num mundo sem destino. Então nos matam aos poucos, justamente pela impossibilidade de ser, de não sustentar a magia sagrada: Billie Holliday morreu com 44 anos; Anita viverá até os 100.
Aí de ti Esfera! Quando faltarem profetas, as pedras cantarão.
Hoje queria atirar pedras nos vitrais, mas só encontrei estas palavras nos bolsos pra atirar.

domingo, 3 de novembro de 2013

Lance de dados

Cada lance de dados mergulha mundos na Sombra. Tudo o que se desvela, vela algo latente. O caminho que tomo agora, suprime o fato de que poderia ter ido por outro caminho. No entanto, de certa forma, em alguma dobra do tempo, estou no caminho velado que agora se desvela velando o anterior. E também estarei no outro caminho... E no outro... E no outro... E no outro. Até que só me reste o resultado do primeiro lance de dados. E novamente estarei nesta estrada da qual jamais escapei... E depois na outra... E na outra... E ainda na outra, feito um rato de gaiola percorrendo sua roda, tendo a ilusão de que sai do lugar. Que estou dizendo? Um lance de dados afirma todas as possibilidades de uma vez. Se jogo os dados duas vezes, o fato de ter dado o número 5 na primeira, não exclui o fato de que o 5 possa vir a dar novamente, e novamente, e novamente. Para continuar com a imagem do rato e da roda, o rato poderia nunca ter estado na roda, porque os lances se seguem e afetam o ponto de lançamento uns dos outros. Para Heidegger é o Ser (com maiúscula) quem se dá a desvelar, quem joga os dados e sabe o resultado, o que nos aparece como acaso é na verdade destino, plano do Ser. Quando as possibilidades se esgotarem, elas tornarão a se repetir, como numa equação cristalina. Isso nos leva aos dois ensinamentos do mestre Zarathustra, que ensina primeiro o eterno retorno do mesmo, o que livra o homem do seu maior ressentimento, o ressentimento contra a morte, e o libera para o segundo ensinamento de Zatrathustra, o além-homem, aquele que diz sim. Os dados são lançados, ninguém os lança, não há sujeito ou escolha, o acaso não é o meio pelo qual o Ser, ou o Espírito se dão a conhecer. Estes são os maus lances de dados que se inscrevem nas mesmas hipóteses. Aqui, o próprio acaso é o fim, o ser, e mantem os dados girando numa velocidade tão grande que os próprios dados se desintegram, desprendem-se os pontos pretos, restam raios, fluxos e o branco, soma de todas as cores. Lá onde se espera o diferente, pode vir a repetição, onde se espera a repetição, pode vir eternamente o diferente. Os dados não caem ordenadamente, primeiro o 1, depois o 2, depois o 3, o 4, o 5, o 6. Podemos jogar os dados 12 vezes e nas doze vezes cair o número 1, ou o número 1 pode não cair em nenhuma delas. Voltando ao eterno retorno, o sim só vale se for um sim à transitoriedade, um sim à plena transitoriedade. O ser é unívoco, se diz sempre de uma mesma maneira sobre todas as coisas, mas o que essa boca fala é a própria diferença, a única coisa permanente é a mudança, o devir. Império do fantasma e do simulacro. O idêntico é a própria diferença, não espera a repetição de uma mesma identidade, mas de uma singularidade pré-individual. Talvez o sim aqui seja  aquele sim a que Nietzsche tenha chegado somente em Ecce Homo, quando afirma ter sido Alexandre, o grande, numa das vezes em que passou pela Terra. Fica algo de Dionísio em Alexandre, algo de Alexandre em Napoleão, algo de Napoleão em Nietzsche, mas ao que me consta Alexandre não tinha bigodes. Já Belchior... Um Nietzsche brasileiro seria ainda mais nietzscheano. Jamais acreditaria num deus que dançasse a valsa vienense, só acreditaria num deus que dançasse samba.