Cada
lance de dados mergulha mundos na Sombra. Tudo o que se desvela, vela algo latente.
O caminho que tomo agora, suprime o fato de que poderia ter ido por outro
caminho. No entanto, de certa forma, em alguma dobra do tempo, estou no caminho velado que agora se
desvela velando o anterior. E também estarei no outro caminho... E no outro...
E no outro... E no outro. Até que só me reste o resultado do primeiro
lance de dados. E novamente estarei nesta estrada da qual jamais escapei... E
depois na outra... E na outra... E ainda na outra, feito um rato de gaiola
percorrendo sua roda, tendo a ilusão de que sai do lugar. Que estou dizendo? Um
lance de dados afirma todas as possibilidades de uma vez. Se jogo os dados duas
vezes, o fato de ter dado o número 5 na primeira, não exclui o fato de que o 5
possa vir a dar novamente, e novamente, e novamente. Para continuar com a
imagem do rato e da roda, o rato poderia nunca ter estado na roda, porque os
lances se seguem e afetam o ponto de lançamento uns dos outros. Para Heidegger
é o Ser (com maiúscula) quem se dá a desvelar, quem joga os dados e sabe o
resultado, o que nos aparece como acaso é na verdade destino, plano do Ser.
Quando as possibilidades se esgotarem, elas tornarão a se repetir, como numa
equação cristalina. Isso nos leva aos dois ensinamentos do mestre Zarathustra,
que ensina primeiro o eterno retorno do mesmo, o que livra o homem do seu maior
ressentimento, o ressentimento contra a morte, e o libera para o segundo
ensinamento de Zatrathustra, o além-homem, aquele que diz sim. Os dados são
lançados, ninguém os lança, não há sujeito ou escolha, o acaso não é o meio
pelo qual o Ser, ou o Espírito se dão a conhecer. Estes são os maus
lances de dados que se inscrevem nas mesmas hipóteses. Aqui, o próprio
acaso é o fim, o ser, e mantem os dados girando numa velocidade tão grande que
os próprios dados se desintegram, desprendem-se os pontos pretos, restam raios,
fluxos e o branco, soma de todas as cores. Lá onde se espera o diferente, pode
vir a repetição, onde se espera a repetição, pode vir eternamente o diferente.
Os dados não caem ordenadamente, primeiro o 1, depois o 2, depois o 3, o 4, o 5, o 6.
Podemos jogar os dados 12 vezes e nas doze vezes cair o número 1, ou o número 1
pode não cair em nenhuma delas. Voltando ao eterno retorno, o sim só vale se
for um sim à transitoriedade, um sim à plena transitoriedade. O ser é unívoco,
se diz sempre de uma mesma maneira sobre todas as coisas, mas o que essa boca
fala é a própria diferença, a única coisa permanente é a mudança, o devir.
Império do fantasma e do simulacro. O idêntico é a própria diferença, não
espera a repetição de uma mesma identidade, mas de uma singularidade
pré-individual. Talvez o sim aqui seja
aquele sim a que Nietzsche tenha chegado somente em Ecce Homo, quando afirma ter sido Alexandre, o grande, numa das
vezes em que passou pela Terra. Fica algo de Dionísio em Alexandre, algo de
Alexandre em Napoleão, algo de Napoleão em Nietzsche, mas ao que me consta
Alexandre não tinha bigodes. Já Belchior... Um Nietzsche brasileiro seria ainda mais nietzscheano. Jamais acreditaria num deus que dançasse a valsa vienense, só acreditaria num deus que dançasse samba.
domingo, 3 de novembro de 2013
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