Outro dia escrevi aqui uma crônica sobre o Carneiro,
o copeiro conservador da padaria que frequento. Devo confessar que eu mesmo, em
algum nível, criticava o Carneiro, sua interminável ode ao trabalho, 18 horas
por dia; mas, quando os amigos postaram comentários criticando também o
Carneiro, algo me incomodou. Não sabia bem o quê. Refleti e cheguei à conclusão
de que fiquei incomodado porque o Carneiro é um cara gente-fina, uma boa pessoa;
sempre disposta a ajudar o próximo, na medida do possível. A SURPRESA: é
possível ter ideias conservadoras e ser uma boa pessoa! Durante a ditadura
militar, por vias diametralmente opostas, os militares acreditaram que sabiam o
melhor caminho para o país e, aos que fossem contra tal caminho, a alternativa
era a bala. Com o fim da ditadura, em algum nível, a esquerda pegou para si não
a bandeira ideológica, mas a bandeira moral do militarismo; algo quase
religioso. Quem é de esquerda é um ser humano melhor, mais altruísta, pensa
mais no outro, no coletivo, põe o dinheiro em segundo plano e, todos sabemos,
nem sempre é assim. Talvez a grande decepção de parcela da população com a
esquerda que chegou ao poder é exatamente a decepção com o fato de que ela
cometeu os mesmíssimos crimes que combatia: soou hipócrita. Mesmo com as
melhorias conquistadas, não foi suficiente. Ainda pensando no Carneiro, outra
ideia que me veio à mente, foi o seguinte: nós, da esquerda, temos pouco poder
de convencimento. Somos bons de embate, debate e de briga, mas não conseguimos
convencer o cidadão comum, o mais pobre, aquele que trabalha tanto que não tem tempo
para pensar. Geralmente, nós o confundimos com o Hulk da Avenida Paulista, com
o Alexandre Frota e partimos para o confronto, quando seria o momento de um
diálogo desarmado.
Sinto-me
melhor agora que, de algum modo, situei o Carneiro em seu devido lugar, mas
ainda tenho de citar um episódio no qual ele foi protagonista para demonstrar o
quanto este cara tem de coração. Foi na época do meu divórcio, um dos divórcios
mais complicados do planeta, que por fim pode ser resumido na fórmula: divorciaram-se
e foram felizes para sempre; mas, antes disso muita água rolou debaixo da
ponte; fica para outra oportunidade. Sempre tive dificuldade pra dormir e nessa
época procurei um psiquiatra que me receitasse algum medicamento. Às vezes
atravessava duas... Três noites sem dormir, mesmo fazendo exercício e
trabalhando. Não tinha jeito. O médico receitou dois comprimidos de sertralina
depois do almoço e um comprimido de diazepam 2 mg antes de dormir; severamente
advertiu:
-
Não beba!
Eu,
entretanto, continuava deprimido, até dormia, mas muito mal, tinha pesadelos.
Criou-se um abismo entre mim e o mundo, entre mim e os outros, entre mim e o
futuro. Num repente, tinha perdido o compromisso com a vida.
Então,
numa noite entrei na padaria. Um amigo das antigas, que estudou comigo desde a
pré-escola até o ensino médio estava lá tomando cerveja. Me chamou. Sentei
junto. Tomei um guaraná, uma brahma sem álcool e, quando vi, estava na cerveja
normal. O amigo foi embora e eu ainda pedi mais uma ou duas. Nem preciso dizer
que deu merda. Eu sou o Rei - nem o príncipe, nem o conde - o Rei das Cagadas.
Fiquei ruim, as pernas deixaram de obedecer. Um sono insuportável. Moro perto
da padaria, na mesma rua. Paguei a conta e fui embora, mas não estava mesmo
bem. O que fez meu amigo Carneiro, conservador e copeiro? Pediu permissão ao
patrão e me levou até em casa.
Fiquei
uns dias sem aparecer, envergonhado.
Tempos
depois, num domingo, entrei na padaria para comprar um frango assado.
-
Olha aí a Bela Adormecida – brincou o Carneiro com o cara do caixa.
-
Fiz merda, pisei na bola, obrigado aí ter me acompanhado até em casa.
-
É perto, mas tem de atravessar a avenida, né professor, do jeito que tu tava,
podia ter batido as botas.
-
Devo uma.
-
Pois não fique devendo, pague logo. Hoje tem culto na Igreja. O que é que tu
vai fazer? Nada que eu sei, vai assistir o Faustão. Bora lá fazer uma visita.
Querer
ir eu não queria, mas aceitei.
Às
18:30 em ponto Carneiro e família passaram em casa e fomos ao culto.
Em
frente à Igreja, todos estavam extremamente bem vestidos. As mulheres com suas
melhores roupas, os homens de terno e gravata, barbas e cabelos bem feitos.
Além de ser o lugar de sua religião, aquele era o lugar de sua diversão, de
estabelecer vínculos, conversar, ver as pessoas. A outra opção era o boteco, e
os que se enfurnavam no boteco, destruíam suas famílias, batiam em suas
esposas. Carneiro mesmo se orgulhava de dizer que estava havia dezoito anos sem
beber uma gota de álcool. A Igreja era saudável e a fé em Deus dava um sentido
às suas vidas. Como a modernidade aboliu a verdade transcendente, Deus passou a
valer como potência do falso. Existindo ou não, o fato é que torna a vida mais
suportável, ordenada. E eu, com todas as minhas leituras, minha curiosidade, meus
estudos, onde estava? Entregue ao caos, com um pé no abismo e outro na casca de
banana. Por todo esse sentido conferido à vida - Deus se preocupa até mais com
os menores - cobrava-se um dízimo, pois nada neste mundo, seja espiritual ou
material, é de graça. Mas eu também não pagava o psiquiatra? E as pessoas não
pagam psicanalistas?
Quando
o pastor começou a falar, percebi que o discurso do meu amigo Carneiro não era
necessariamente dele, mas da Igreja. Assim como muita gente, quando fala, nada
diz de próprio, mas tagarela o discurso do partido, da universidade, dos “formadores
de opinião”. Lembrei da música do Paulinho Tapajós: Eu tantas vezes me sentei sozinho para jantar / Comprei milhões de
pensamentos pra não ter de pensar. Eu estava irremediavelmente arruinado.
Tinha perdido a capacidade de auto-ilusão. Provara da árvore do conhecimento. Não
era uma escolha, para mim, eu já não podia optar pela Igreja. Tinha perdido o
órgão da fé.
Depois
do culto, comemos alguma coisa na cantina da Igreja e o Carneiro me deixou em
casa.
Mesmo
tendo tomado o remédio, não conseguia dormir. Imaginei um país dominado por
Igrejas evangélicas. As mulheres, todas, queriam casar e ter filhos, três ou
quatro, ao contrário das mulheres “seculares”. Basta uma projeção simples. A
Igreja oferecia o que os seres mais humanos almejam: sentido. Dane-se a
liberdade, ninguém quer ser livre, ela, a liberdade, só traz problemas e
responsabilidade. Além disso, havia o sentimento de fazer parte, as vidas estáveis.
A contrapartida? O machismo, a homofobia, o preconceito, o dízimo...
Não
tenho muitas certezas nessa vida, mas uma percebi no dia em que fui à Igreja
com o meu amigo Carneiro, conservador e copeiro – nessa ordem: o poder político
das Igrejas evangélicas está apenas começando e eles já têm uma bancada
respeitável no congresso, governadores, prefeitos, canais de televisão e outras
mídias e pessoas que têm a certeza de agir de acordo com o que Deus quer e Deus
é a verdade contra a qual não há argumentos.

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