... tudo isso sem contar o
tremendo tapa que eu levei com a história do splish splash, mas esta história
também é interessante.
Estávamos eu e João Francisco, aquele
que mudou de nome depois da primeira viagem à França para Jacques Françoise, não aceita que lhe digam o nome sem se antepor o epíteto de Doutor e que usa
cachecol tanto no inverno quanto no verão. Em suma, meu professor de filosofia,
meu mestre, meu orientador, aquele cuja cabeça iluminava meus caminhos para que
eu pudesse deixar de ser um verme rastejante dos pântanos férteis da
ignorância. Íamos a um congresso de três dias, em Campinas, sobre o casal mais
feio que já se formou sobre a face da terra: Jean Paul Sarte e Simone de Beauvoir.
Antes, porém, precisávamos pegar uma professora no aeroporto de Guarulhos. Como
conhecia melhor os caminhos da zona leste, eu dirigia.
- Daniel, mon cher, você vai ver
a Elke, que maravilha! Escreveu recentemente o livro Como conversar com um machista. Estudou com Pierre Montebello,
Sorbonne, absorva tudo, mantenha os ouvidos atentos, você tem muito que
aprender. Ah! A Elke que saudade, que inteligência cortante, que cabeça
maravilhosa!
A Elke não demorou muito a
desembarcar. A primeira impressão que tive foi que ela era a própria Betty
Boop, Jacques não estava mentindo: que cabeça maravilhosa! Chapéu ali, só por
encomenda. Talvez eu esteja exagerando, talvez não fosse tão cabeçuda. Se
ultrapassava uma caixa d’água de mil litros era coisa de centímetros.
Depois dos abraços, fui
apresentado.
- Este é o Daniel, meu
orientando. Esta é a Profª Drª Elke Veyne.
Ela ofereceu-me a ponta dos
dedos, com nojo. Segurei as pontas dos dedos dela e entramos no carro. Antes de
assumir meu posto atrás do volante, porém, dei uma cheiradinha nos dedos, eu
podia estar fedendo e não ter percebido. Do jeito que ela segurou minha mão, parecia
que estava suja de merda; mas não estava, perfume do mais nobre detergente ypê.
No caminho até Campinas, tudo
normal. Como quaisquer mortais, eles não
faziam outra coisa além de falar mal dos próprios colegas. É que fulano tinha sido
sacaneado por cicrano, o qual também tinha dormido com a mulher de beltrano e beltrano,
por sua vez, tinha enrabado fulano, que,
pelo que entendi, só tomava no cu. Coitado de fulano! E eu ali absorvendo tudo
para deixar de ser um verme rastejante dos pântanos férteis da ignorância. Como
é empolgante o saber, a filosofia, a expansão de nossos horizontes, a experiência
inigualável de pensar!
Pegamos um bom trânsito. Paramos
para tomar café. Descafeínado, por favor
– disseram os dois. Foi quando chegamos à universidade onde ocorreria o evento
que pé do frango azedou. A Profª Drª Elke Veyne cismou que a sala não estava
devidamente higienizada. Protestou. Disse que só destilaria sua sabedoria depois que
a sala estivesse devidamente limpa. Escreveu uma carta de próprio punho, duas
páginas, à chefia da limpeza. O Profº Dr. Jacques Françoise, que era um dos
organizadores do evento, quase teve um infarto, andava pra lá e pra cá, com o
cachecol esvoaçante batendo na face de quem estivesse por perto. A sala estava
de fato empoeirada e havia aqui e ali uma bolinha de papel, os cestos de lixo
estavam pela metade. Nada comparado a uma sala de aula de escola pública.
Cinco minutos depois, apareceram
duas meninas, vestidas com o inconfundível uniforme azul marinho. Digo meninas
porque não deviam ter mais de vinte anos. Uma delas estava com uma barriga de
uns sete, oito meses. Em menos de dez minutos deram uma geral na sala e saíram
sob os olhares de reprimenda. Pobre é sempre invisível, quando é visto, é pra levar uma esculachada.
Com os imprevistos, a fala da
Profª Drª Elke Veyne, que abriria o congresso, acabou ficando para depois do
almoço. O segundo palestrante começou a falar e o congresso seguiu adiante.
Seriam três dias do mais puro blá blá blá: o ser, o nada, a opressão, etc... etc...
etc... Eu já estava com o espírito preparado. Meditava feito um Buda: ommm,
ommm, ommm...
Quando saímos para almoçar, vi as
duas meninas chorando numa mesinha ao sol. Os outros não viram. Como disse
anteriormente, pobre é invisível. Os
professores pegaram suas carteiras no carro e foram a pé almoçar num
restaurante vegetariano. Preocupavam-se com as vacas e os porcos, mas fodiam a
vida das faxineiras, era normal. Falei que ia comer no restaurante
universitário mesmo, era mais barato.
- Ele ainda não se conscientizou
– Disse Jacques Françoise à amiga.
- É um crime se alimentar de
outros animais – ela emendou.
- Vou comer só a salada então.
Os dois foram para um lado e eu
fui para o outro.
Sentei na mesinha com as
faxineiras.
- Que aconteceu?
A grávida não parava de chorar.
A outra também estava triste, mas
encontrou forças para responder.
- Levamos uma semana de
suspensão. Sem pagamento.
A grávida sussurrou...
- Sem esse dinheiro não vou
conseguir pagar a prestação do enxoval do bebê.
Se tivesse mais dinheiro, teria
dado a ela naquele momento. Olhei a carteira. Exatamente setenta e oito reais.
Doei, era tudo o que eu tinha. Não quis aceitar, a princípio, mas acabou
pegando. Qualquer ajuda era válida naquele momento.
Fiquei indignado, brabo feito
siri na lata. Como é que uma filha da puta daquelas, que talvez nunca tivesse
arrumado a própria cama, que nunca tinha lavado uma louça, trocado um chuveiro,
filha de fazendeiros do Rio Grande do Sul, fodia a vida das meninas daquele
jeito e depois subiria num palco, na maior cara de pau, para falar de opressão?
Eu tinha de fazer alguma coisa,
mas o quê? Deus às vezes se veste de acaso. No caminho de volta ao carro, encontrei
um bloco de quinze, marcando, ali, no chão. Estavam reformando o refeitório.
Peguei-o. Fui até o carro, abri a mala da Profª Drª Elke Veyne. Ela tinha levado a bolsa, mas
deixado a mala. Havia roupas e uns dois ou três livros. Apanhei o maior deles, O segundo sexo, de madame Simone de
Beauvoir e coloquei o bloco no lugar. Fechei a mala. Não tranquei o carro. Em
qualquer caso, este esquecimento seria minha prova de inocência. O carro
aberto, Campinas anda cheia de delinquentes. Deixei o livro numa das mesas da
biblioteca e fui almoçar.
À tarde, fiz questão de chegar
atrasado à comunicação da Profª Drª Elke
Veyne. Mesmo assim pude ver o bloco de quinze no canto da mesa, junto a dois
outros livros, enquanto a profe discursava:
- Provedora, vassala, acolhedora.
Não importa como se apresenta, o lugar da mulher sempre foi definido pelo
homem. Este configura a posição central na sociedade e...
E dá-lhe resenha, ainda faltavam
dois dias e meio.

Nenhum comentário:
Postar um comentário