Por essa época, eu andava bem quieto no
meu canto, mas acabei me metendo em mais uma enrascada por causa da minha mulher –
ia dizer companheira; mas, quando uso o termo, penso no Lula usando uma peruca loira
-, a famosa e formosa escritora Márcia Barbieri, aquela mesma que escreveu o best-seller A Puta.[1]
Provavelmente vocês não saibam, mas ela não gosta quando as coisas estão muito
calmas; então, sempre inventa alguma atividade e me arrasta junto. Já fiquei
plantando bananeira por uma hora num curso de yoga, já paguei pra derrubar parede
com marreta - tratamento anti-stress
-, já fui a uma macarronada num cemitério em noite de sexta-feira treze - performance, entendem, coisa muito
artística. Engraçado que a macarronada não saía e eu lá, com fome, vendo umas
bestas gritar e jogar molho de tomate uns nos outros. Geralmente sou calmo, mas
com fome ou insônia, acesso o escorpião do signo. Falei pra Márcia:
- Se um filho da puta desses jogar
molho em mim o pau vai cantar aqui.
- Relaxa, você é muito quadrado, não
precisa ficar nervoso.
- Já é quase uma da manhã e ainda
não jantei.
- Fique tranquilo, o macarrão já vai
sair. Se deixar, você só quer saber de ficar em casa, precisa sair, conhecer
pessoas, expandir a mente, fazer contatos, ver o mundo.
Nada respondi, mas nunca estive a fim
de conhecer pessoas ou fazer contatos. Sou doente. Só estou nessa de escrever
por causa do dinheiro. Se não tivesse vendido a impressionante soma de 60
livros do meu último romance e ganhado um pirulito de direitos autorais, já
teria desistido. Vai vendo.
De todas as nossas aventuras, não
há, contudo, uma que se compare à participação no Grupo de Trabalhos de Filosofia da Diferença. Foi lá que conheci a
legendária figura de Jacques Françoise, aquele que usa cachecol - ou ao menos
echarpe - tanto no inverno quanto no verão. Aconteceu assim: a Márcia
encasquetou de entrar no mestrado para estudar Deleuze e o primeiro passo
sugerido foi a entrada no Grupo. A princípio, resisti. Não fui aos primeiros
encontros. Como acontece com Nietzsche e Raul Seixas, meu problema não é com
Deleuze, mas com os deleuzianos. Ficava em casa ouvindo Thin Lizzy. Uma sexta-feira,
entretanto, resolvi acompanhá-la.
No começo, até que gostei. Tudo parecia
tranquilo, salvo o visual das figuras. Normal, como disse um amigo cearense certa
vez: São Paulo é uma espécie de Nova Iorque. Ele não conhece as entranhas da
cidade. Tomamos café descafeínado. Comemos um bolinho integral, umas bolachas. Uma turma saiu para
fumar uns cigarrinhos de tabaco orgânico. E aí, depois, fomos para a mesa
começar a leitura de Diferença e
Repetição:
Apresentei-me e fiquei ao lado da
Márcia. Antes de começarmos a leitura, entretanto, um rapaz puxou conversa com
Jacques Françoise:
- E aí gostou da cerimônia?
- Ó sim interessantíssima. Sinto que
é preciso implodir o monoteísmo. As religiões de origem africana são uma opção:
multiplicidade. O candomblé é um devir.
Deleuze é o filósofo contemporâneo do
devir. Para ele, todo devir é minoritário, qualitativamente. Assim, seus
seguidores todos querem fazer parte de uma minoria. O rapaz continuou:
- Nós, negros, precisamos resgatar
nossa identidade...
Aí eu arregalei os olhos redondos,
engasguei com o resto do bolo, tossi, soltei um peidinho sem som. Imaginem que
o rapaz que se intitulava negro atendia pela singela graça de Matsunaga
Yamazaki. Um japonês com dread nos
cabelos. Como ninguém falou mais nada, fiquei na minha. Para ele, ser da
minoria asiática era pouco.
Pediram que eu começasse a leitura.
Uma tradição do Grupo. Os novatos sempre liam.
Por mim, tudo bem, estávamos no prefácio.
Li duas palavras e lá veio a expressão: Dito
de outro modo...
Bastou. Filosofia é uma disciplina
rigorosa, qualquer deslize pode provocar um desastre! Cada vírgula é importante! Enquanto líamos a tradução, nosso mestre Jacques Françoise, acompanhava a leitura
no original em francês:
- Alto lá! – gritou.
Assustei, quase caí da cadeira,
achei que tinha feito merda outra vez, como tenho feito a vida toda.
- O certo seria outramente dito e não dito
de outro modo.
- Como está no original? - Perguntou a Luísa Fernanda Ovo, outra figura que participava do grupo e dizia
saber os motivos pelos quais os navios boiam e os pregos afundam.
- Autrement dit.
Instalou-se uma discussão que
durou quase quarenta minutos. Fui ao banheiro, voltei e eles continuavam
discutindo. Então resolvi intervir, já não aguentava mais:
- Escuta gente, acho que esse
outramente dito não existe. De qualquer modo, não muda o sentido do que o autor
quis dizer.
Pra que fui abrir minha boca? Quem
eu pensava que era! Um iniciante! Um verme rastejante dos pântanos férteis da
ignorância! Jacques Françoise revirou o cachecol, ajeitou os óculos e sem aceitar
intervenções sentenciou:
- Corrijam aí nos livros de vocês.
Ele era o cabeça, tinha feito curso com
o próprio Deleuze. Assim, os demais participantes pegaram seus lápis e
escreveram miudinho: outramente dito.
- Continuemos a leitura.
Li mais duas palavras e lá veio a pérola
bergsoniana: duração. Desta vez foi a tal Luíza Fernanda Ovo, doutoranda em
Bergson, quem parou a leitura.
- Gente, existe uma só ou várias
durações? Porque segundo fulano de tal...
Lá se foi mais uma hora e tanto de
discussões.
Depois de duas horas, demos a sessão por
encerrada. Tínhamos lido cinco palavras.
- Hoje foi um dia produtivo – disse o
negro do Japão.
- O importante é o rigor – continuou Jacques.
Rigor
mortis pensei,
mas fiquei calado.
Estavam estudando a obra havia dois
anos e se encontravam na metade da segunda página do prefácio. Naquele ritmo
frenético demorariam umas três encarnações pra ler o livro todo, mas o
importante era o rigor.
Convidaram-nos para beber alguma coisa.
Inventei uma desculpa, filhos pequenos e tals.
No fim das contas, acabei frequentando o
Grupo de trabalhos de filosofia da
diferença por três anos, porque masoquismo pouco é bobagem e Sacher-Masoch
também fazia a cabeça do filósofo francês. A Márcia, muito... Malandramente, menina inocente, acabou
saindo antes.
[1]Todo mundo
reivindica liberdade, mas deixasse eu ter escrito primeiro um romance
intitulado O putanheiro... Ela, entretanto, não perde por esperar. Estou
escrevendo a saga O gigolô, três
volumes de mais ou menos setecentas páginas cada um. Deixe.


Um comentário:
Daniel, estou aqui rindo a valer com sua aventura filosófica. Puta que o pariu! Hilário e vamos combinar: você teve paciência. Ou, sacou que ali havia uma enorme gama de personagens prontos para futuramente traçar suas linhas num romance. Adorei!
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