Que o brasileiro é um povo alegre,
brincalhão, divertido, ninguém pode negar. É público e notório. Em cima do fato,
aparece, de cara, não a notícia, mas a piada. Depois ainda falam do humor dos
ingleses. Geralmente, a piada, anônima, surge num repente e está sempre ligada
às classes menos abastadas: o boteco é a casa da piada. Vocês já viram ricos
contando piadas? Já viram intelectuais contando piadas? Deus nos livre! Outro
dia vi o Cortella, o bispo do óbvio, já que o papa é o Karnal, ensaiar uma
piada tão sem graça que até ele ficou com vergonha de rir. A piada nasce das
pedras do pobre. Sempre foi assim, desde a idade média. Como não se podia
aviltar os poderosos: piada neles.
Agora, outra coisa que não se
pode negar também é que o brasileiro, principalmente o que não é muito rico nem
muito pobre, é cafona, brega até as últimas consequências e blusas de oncinha. De
certo modo, querem esquecer suas origens humildes, seu bom humor, afinal
chegaram a subgerentes, a postura tem de ser outra. Então não basta visitar Miami
e colocar as fotos nas redes sociais. Como neste momento estão na moda os
protestos, é preciso protestar também em inglês. Bem típico de quem está no
primeiro ou segundo estágio. Um ano de inglês, no máximo. E aí colocam suas
camisas da nike, suas calças adidas, seus tênis reebok e vão protestar. Ninguém tem uma porta pra consertar, um
quintal pra lavar, um almoço pra fazer. A onda é protestar. Contra o quê? A
resposta está na ponta da língua: corrupção!
- Mas o sistema todo é corrupto, não seria o caso de pressionar
firmemente por uma reforma política? E quem diabos vai saber o que é
reforma política? E, mais, quem sabe que políticos sempre estiveram contra a
tal reforma? Aí desconversam. Estendem os cartazes em inglês: “In moro we
trust!”, “Save the Brazil!” “Bola de Neve Church”. A quem será que a mensagem
está sendo dirigida? Ao Trump? À Theresa May? Nem eles sabem, mas imaginam que
protestar em inglês seja mais elegante.
Estou para dizer que o problema
do Brasil é um problema estético. Temos a maior parcela da população tão
desinformada, cafona e brega que o problema ético ou moral fica em segundo
plano. Trocar a feirinha da madrugada pela feirinha de Miami não faz ninguém
mais sábio, ou articulado. Mesmo os extremamente ricos são estúpidos. Nos
países mais desenvolvidos, as elites educam os filhos com viagens, visitas aos
melhores museus do mundo, contato com as melhores obras da literatura e da
filosofia ocidental, aprendem línguas. Aqui, compra-se um carrão pro moleque e
tal e qual no conto do Rubem Fonseca, dizem:
- Vai lá tigrão, vamos ver
quantos ciclistas você consegue atropelar esta noite!
Quando houver de fato uma
educação estética (não a estética unicamente no sentido do belo, mas do
existencial), as pessoas, talvez (talvez), perceberão que o dinheiro é um meio
e não um fim, um instrumento de acesso às mais nobres criações humanas. Quando a arte, a fruição estética, substituir a ânsia de acúmulo, talvez (talvez)
tenhamos um país menos corrupto e muito menos brega, pois o que será valorizado
não será a picape tocando chego na balada/ dirigindo meu carrão/ subo pela calçada e atropelo uns pobretão, mas
a capacidade de conduzir uma conversa de maneira culta, ou, ao menos, adulta.

4 comentários:
De fato, em Schiller, há a noção da Estética contra o despotismo. Um Estado Estético; até o nome é elegante! Ótimo texto, Daniel, com um bom humor sutil (percebe-se, inclusive, que você faz parte dessa população que sabe fazer piada).
Estou aqui aplaudindo de pé suas palavras.O único real problema do Brasil é, sem dúvida, a Educação. E é através dela que se conquista todo o resto. Na falta dela, é exatamente o que vemos em toda parte. Essa inversão de valores, essa absurda vontade patológica de acumular bens que nem ao menos sabem usufruir de fato. Fala-se mal, escreve-se mal, lê pior ainda e assim, vamos seguindo de mal a pior a cada dia...
Muito obrigado pelos comentários, amigos!!!
Muito obrigado pelos comentários, amigos!!!
Postar um comentário