Em minhas últimas crônicas, tenho
tratado do gênio filosófico, especificamente encarnado na legendária figura de
Jacques Françoise, aquele que pensa pelos cachecóis. Reconheço que Jacques não
é tipo de fácil trato, o que é muito normal para quem teve aulas com Guattari,
Deleuze, Derrida e é amigo pessoal de David Lapoujade, Peter Pál Pelbart e de
toda a língua do P. Devo dizer, todavia, que, com o tempo, aprendi a lidar com
ele e chegamos inclusive a nutrir mútua afeição até o desfecho desastroso; o qual não
pretendo abordar nesta crônica. Jacques era fã do elogio.
Para se dar bem com ele, bastava soprar-lhe o ego feito balão vermelho e nunca,
jamais, sob hipótese alguma, contrariá-lo. Nosso grupo de estudos se reunia ao
redor de uma mesa de madeira maciça, quadrada; pois, se Jacques Françoise
afirmasse que a mesa era um jumento, eu dizia: - Tens razão, amado mestre, acabei
de vê-la dar um coice ainda há pouco, por um triz não mo acertou justo nos
culhões.
Outra estratégia de notável utilidade era desaparecer quando, em um congresso, ele sentia que ficava por baixo em uma discussão. Saía do auditório de chibata em punho, doido para achar um orientando e descontar a raiva.
Outra estratégia de notável utilidade era desaparecer quando, em um congresso, ele sentia que ficava por baixo em uma discussão. Saía do auditório de chibata em punho, doido para achar um orientando e descontar a raiva.
Aprendi muito sobre cachecóis e vida
alheia com Jacques Françoise; mas, hoje, não é dele que quero tratar. Salto,
portanto, do gênio filosófico, para o gênio poético. Assim como o gênio filosófico,
o gênio poético não é menos genioso. Sempre recebi em casa escritores de outros
estados ou cidades de passagem por São Paulo. Fiz grandes amigos, como, por
exemplo, o Anderson Fonseca que, recentemente, lançou o seu excelente Sr. Bergier e outras histórias. Vez por
outra, entretanto, aparece por aqui um gênio genioso. Descreverei, se houver
espaço, dois casos nesta croniqueta. Primeiro vos apresentarei Archiello
Mariel, o folgado; em seguida, Cornélio Cunha, o deprimido.
Conheci Archiello Mariel por
intermédio de minha mulher, Márcia Barbieri, aquela que escreveu o best seller A puta. Mal fomos apresentados e ele logo me informou que morava no
litoral e nos devia uma visita a qual pagaria imediatamente no próximo final de
semana, pois não gostava de dever nada a ninguém. Sábado seguinte, de manhã,
fui buscá-lo na rodoviária. Mal entrou no carro, Archiello Mariel afirmou que
tomaria conta da minha carreira literária a qual, em breve, decolaria. Prêmios,
eu só ganharia do José Saramago para lá. Para começar ele faria um documentário
comigo. No sábado mesmo, pois pretendia ficar um único dia em São Paulo. Se
tinha tanta influência assim por que é que andava naquela tremenda pindaíba? –
Pensei de mim para comigo – a camisa sem botões, o sapato furado. - Por que não usava seu poder em benefício
próprio? – Escrúpulos, meu caro, não ligo para tais coisas, sou um poeta, meus
valores são mais elevados.
Ao chegarmos a casa, o almoço estava
pronto. A Márcia pediu que ele se servisse.
- Por favor, ponha para mim, sou um
tanto quanto tímido, rá, rá, rá.
A Márcia o serviu:
- Assim está bom?
- Mais um pouquinho
Ela colocou mais um pouco de batata
e carne.
- Não, não, agora foi demais.
Márcia tirou o que tinha colocado.
- Agora sim. Escuta, vocês não têm
um aperitivo aí não?
Respondi que no momento não estava
bebendo e não tinha uma garrafa sequer em casa.
- Que pena! Pois eu não como sem um
aperitivo. Daniel me acompanha até o bar mais próximo, meu caro? É coisa
rápida.
Tomou uma caipirinha. Na hora de
pagar, pediu que eu acertasse, tinha esquecido a carteira em casa.
- Um litro de vinho também não faz
mal a ninguém. Pegue um litro do tinto. Em casa acertamos, querido poeta Guaccaluz.
Voltamos.
- Tem uma pimentinha por aí, querida
Márcia.
Eu mesmo peguei a pimenta e pus na
mesa.
Ele comeu, repetiu, foi ao banheiro,
escovou os dentes e, sem cerimônia, se deitou na nossa cama. Dormiu o resto da
tarde. Quando a noite chegou, resolveu sair.
- Uma pena que não conheço essas
bandas. Daniel, meu bom poeta, acaso você não me deixaria no metrô?
Conduzi-o até o metrô Itaquera.
De madrugada, acordei com o som no
volume máximo. Lá estava o hóspede ouvindo James Brown como se não houvesse
vizinhos. Abaixei o som.
- Tá maluco, as crianças estão
dormindo. Olha os vizinhos!
- Não esquenta, Meritíssimo, amanhã
faremos o seu documentário. Vai ficar uma beleza, tu vais ver – de repente, eu
tinha me tornado Juiz, Meritíssimo. Em breve ele me chamaria de Vossa Excelência.
Dia seguinte, acordou por volta das
onze. Na mesa, tinha uns frios, pão de forma, café, leite. Chamou-me de
canto.
- Escuta não tens umas frutas, não?
Estou meio de ressaca. Uma melancia cairia bem, quiçá um suquinho de laranja? Um
mamãozinho papaia, hum?
Fiz o suco de laranja.
- Sabe – ele disse – o gênio poético
sempre incomoda. Imagine se você recebesse em casa um Baudelaire, um Lord
Byron? Espero não estar sendo um hóspede inconveniente...
- Hum, hum...
Durante a tarde, monopolizou o
computador e os controles da televisão da sala, estava interessado em um
documentário. Assistia à tevê e fazia postagens no facebook... Ria alto, tirou
a camisa, coçava a barriga. Márcia, eu e as crianças ficamos assistindo no
quarto. Parecia o conto A casa tomada,
do Júlio Cortázar.
- Amanhã é segunda, todos temos de
trabalhar, se quiser te deixo no metrô antes de seguir para o trabalho –
comentei depois do jantar.
- Não, que é isso? Jamais! Não se
preocupe comigo. Estou bem. Eu me basto. Não preciso de ninguém para me fazer
companhia. Eu me basto. Ainda tenho algumas coisas para resolver e nós ainda
não fizemos aquele seu documentário.
- Esquece o documentário, velho, não
estou interessado.
- Não, mas eu estou. Prometi para
você e palavra de homem não faz curva.
Deste modo, entre aperitivos, vinhos
tintos, suquinhos de laranja, não tem um bolinho de chocolate aí? Uma semana
inteira se passou.
Sexta-feira à tarde. Chamei a Márcia
num canto e falei...
- Escuta, o nosso gênio não vai
embora tão cedo. Vamos visitar seu irmão amanhã. É o único modo de dispensá-lo.
Comunicamos a novidade ao hóspede.
- Tudo bem, sem problemas. Então eu
volto outro dia para fazer o documentário. É bom que a gente não perde o
contato. Vocês me dão uma carona até a rodoviária?
Dia seguinte, deixamos Dante Aleghieri
na rodoviária. Tive de emprestar vinte reais para ele completar a passagem.
Até as crianças respiraram
aliviadas, o João poderia voltar a jogar videogame sossegado, a Sofia
assistiria a seus programas prediletos na televisão e o PC ficaria desocupado
para todo mundo por um tempo.
Só uns três dias depois foi que
percebemos as coisas que tinham sumido CD´s do Miles Davis, livros do Heidegger,
Eduardo Viveiros de Castro, Jung, Deleuze, o DVD O rito do Bergman, o Fifa soccer 2014, do João, um par de meias da Sofia.
- Nunca mais quero ver esse cara –
falei, peremptoriamente.
Mas não é que o malandro me encontrou
meio alegre num evento, encheu meu copo mais algumas vezes com bebida alheia e
foi parar lá em casa outra vez? E dessa vez, eu mesmo convidara o vampiro. Mas
isso já é outro capítulo.
Ficou faltando tratar do Cornélio Cunha, o deprimido. Fica para a próxima também. Será a primeira crônica de
2017.
Quanto ao documentário? Estou
esperando até hoje. Espero que o Archiello Mariel não leia esta crônica e
resolva aparecer para realizá-lo.


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