-Não é prudente se colocar entre o
drogado e sua droga.
- Aqui também não há mais nada –
vejo pelo reflexo no espelho a mão direita entrar na barriga, os dedos apontam
na dorsal. – Também nada no coração. Você sempre consegue, não é? Destruir tudo?
- Não era eu, irmã.
- Agora não importa, a polícia está
a caminho. O que é que você sabe sobre maracujás e criar filhos? Porra nenhuma!
A cidade acorda. Caminhões, carros
de passeio, de polícia, de bombeiro, trens de carga ao longe e, mais ao longe ainda,
o mar e a fuga impossível. Ó manhã-cascável, mil guizos na cabeça de pedra. Ó
manhã-medusa, mil chocalhos velando o corpo morto do amor.
Ele se levanta de cuecas. Olheiras
fundas de quem não pregou os olhos a noite inteira. Olha o caixãozinho branco.
As flores. O menino Jesus. Daria tudo pelo frescor do passado. Daria tudo pelo
riso dos primeiros dias. O tempo tem vasto poder de destruição. Quando morria
no olho do sonho, a esfinge aconselhou, sentada, tranquila, no alto da roda.
- Só há uma saída: siga o rio enquanto ele desce, no exato ponto em que começar a subir - e o rio que sobe encontrar o rio que desce - você deve atravessá-lo. É o único modo de escapar.
- Só há uma saída: siga o rio enquanto ele desce, no exato ponto em que começar a subir - e o rio que sobe encontrar o rio que desce - você deve atravessá-lo. É o único modo de escapar.
Nem tentou. O encontro dos rios é a
porta do inferno.
Gosto estranho; na boca, um pássaro
recém-nascido e já morto, caído do ninho, os olhos cinzentos, o bico do bicho
pegado à língua suja de carvão. Formigas fazendo seu trabalho. Tenta se
desvencilhar do pássaro, ele bate as asas molhadas, doces, sem penas; ainda
está vivo, mas não por muito tempo. A língua sangra. Soltam-se. Ele sopra o bico do passarim.
- Por favor, não morra mais nada nesta manhã! Já perdi pais, irmãos, amores,
amigos, filhos, bichos de estimação. Sobreviva ruiseñor!
Não quero perder meu pássaro. Arqueja o peito frágil. Procura o ar para teus
pulmões de passarinho. Lembra do mel que tua mãe colhia pra te fabricar nas
entranhas-mistério de fêmea.
Não há o que fazer.
Ele deixa o pássaro cair também ao chão. Três gatos se aproximam para cheirar o cadáver.
Não há o que fazer.
Ele deixa o pássaro cair também ao chão. Três gatos se aproximam para cheirar o cadáver.
Se
pudesse, faria como ela, enfiaria os dedos por dentro do crânio e arrancaria
a massa lá de dentro com as mãos: escorpiões que se amontoam, serpentes entrelaçadas, escuridão, lacraias, culpa, remorso, desespero, manhãs.
- Você teve o melhor esboço, mas
rasgou o papel.
- Não sou eu, é o outro que mora em
mim.
- Teu cu.
Uma viatura para na frente da porta
do hotel, portas abertas.
- Essas porras desses viciados só
dão trabalho, fazem barbaridades quando estão chapados.
- Deveríamos agradecê-los. Sem eles,
não teríamos nosso trabalho!
Na entrada do prédio em ruínas, o
poeta louco português grita, sob as faixas do MTST:
“Piedade
para o Demónio, piedade para a solidão demoníaca... Eu conheço o silêncio do
carrasco. Conheço a irremissível solidão do Demónio. Na Holanda, o Demónio é
negativo. Está no meio das vacas: não escreve poemas, não pode exercer os dons.
Pensa, perde o nome. Quem esperaria dele que trabalhasse a terra ou protegesse
as alimárias?”
Não estavam na Holanda, mas em São
Paulo – locomotiva de todos os horrores.
Profundo é o medo das manhãs, que
nada tem a ver com a polícia.


Um comentário:
Que conto maravilhoso! Difuso e grandioso: "Lembra do mel que tua mãe colhia pra te fabricar nas entranhas-mistério de fêmea"
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