Desde sempre é
sabido que a linguagem não é neutra, ou ela é fonte de poder ou de resistência.
Deleuze e Guattari, principalmente em seu livro sobre Kafka, falam do poder de
uma literatura menor, que é o uso que uma minoria faz dentro de uma língua hegemônica,
caso dos judeus no Ovo da Serpente kafkiano, dos negros nos E.U.A, ou nas
periferias brasileiras. A língua é desterritorializada, arrastada para longe de
seus dogmas gramaticais e semânticos. Assim, já a língua e a literatura são uma
máquina de guerrilha contra o Poder instituído. Recentemente, tenho visto
amigos substituírem os gêneros masculinos e femininos por @ ou X. Escrevem:
amigxs (o que me parece algum plano diabólico da Xuxa que desde os anos 80
vem mandando mensagens subliminares do capiroto quando rodamos seus discos ao
contrário), ou amig@s (o que me lembra coisa do Bill Gates, Zuckerberg, ou de algum
desses magnatas manipuladores da internet, do mundo virtual). Pergunto então,
se o uso da palavra é tão importante como meio de luta e fortalecimento, por
que o uso do termo EMPODERAMENTO? O poder sempre esteve ligado a tudo o que é
escroto e desigual, de Nero a Hitler, dos militares às subgerentes Dorianas?
Será que o necessário é o poder ou a emancipação, a igualdade, a arte de
recusar e resistir ao poder? Todas as traduções mais à esquerda de Niezstche preferem o termo vontade de potência, pois
potência é potência para agir, ao termo vontade de poder. O medo de amar é o
medo de ser livre.
Assim como a
linguagem é viva, nunca neutra, e o estilo é justamente o modo como alguém
livremente faz uso da língua. Em moda, o estilo é o modo como a pessoa faz uso
das roupas. Sempre tive certos conceitos prévios quanto ao mundo da moda, mas
que se confirmam mais e mais como sólidos preconceitos contra o glamour que envolve
até a semana da moda de Jacareí. A moda quer constituir o sujeito a partir da
exterioridade, e boa parte das pessoas acaba por se constituir assim: pura
aparência. Livro? O pequeno príncipe; que, a bem da verdade, é um baita livro;
mas será que leram ao menos este mesmo? Falo tudo isso pra chegar ao Liniker, rapaz
até talentoso que vi na TV outro dia, mas que precisa usar saltos finos de 15
centímetros, os quais acho uma agressão a qualquer pé – masculino ou feminino –
para aparecer, tirar selfies com desconhecidos na rua? Os New York Dolls,
Bowie, o próprio Caetano já não quebraram essas barreiras nos anos 70? Será que
se ele tocasse de tênis, calça e camiseta seria um artista menor? Eu prezo o
conforto. No caso da roupa, calça de agasalho, ou jeans, tênis, ou chinelo e
camiseta. Sinto em tudo o golpe da cotovelada para aparecer na TV, na Net, e, de
fato, só aparecem mesmo os pavões. É fácil andar vestido de mulher na Paulista,
qual a novidade? Difícil é para o menino de 15 anos, negro, na favela, colocar
uma minissaia entre pastores e traficantes. Hoje existem até falsos gays no
meio artístico, tudo em prol de seus minutinhos de fama. E quando aquela menina
foi estuprada por dezessete traficantes, apareceu um monte de marmanjo de batom com foto
no perfil dizendo “fomos todos estuprados”. Porra nenhuma! E, ainda ontem, abri
o facebook e estava lá a matéria sobre a lingerie masculina, cujo aumento de vendas foi absurdo de um ano para cá: um calcinho apertadinho e rendado custando quase R$ 80,00. (Que será que o Beckham anda fazendo da vida?). Fiquei imaginando meu tio, roceiro em Tatuí, 1,85, 120
quilos com uma daquelas. Por mim, o melhor seria viver feito índio, todo mundo
nu, a não ser nos dias frios, mas cada um se veste como quer; por mim, foda-se.
O caso é que em tudo se formam clubinhos. E hoje, se você não é do clubinho da chuquinha
e salto alto, você é do clubinho do Bolsonaro-Alckmin-Dória e, Deus me livre,
prefiro aderir ao clube da cuequinha de renda; o qual, a bem da verdade, outro dia até
linchou virtualmente um menino porque escreveu um texto - ingênuo inclusive - sobre
ficar observando as meninas chupando laranja no restaurante da USP. Chamaram-no
pervertido. Achavam-se melhores que o menino, donos do Bem e do Belo. Em menos de 24
horas os policiais das redes sociais – gente inteligente, universitária – prenderam, julgaram e bloquearam o rapaz. E
são todos do clube do mesmo clube. Lutam todos por um mundo mais justo na
Paulista.
E, pensando em
esquerda, soube recentemente, de fonte fidedigna, que uma famosa filósofa,
feminista, articulista da revista cult, fundadora de partido e tudo faz
palestras para empresários. Só numa palestra para grã-finos amigos de um dos
donos da Sadia - o bom verniz cultural - embolsou um cheque que vale mais que meu salário anual.
Antigamente, um comunista matava o melhor amigo, morria sem borrar as calças
por causa da Causa. Os princípios sempre à frente das personalidades. Eram
idiotas, achavam que mudariam o mundo, mas eram idiotas honestos. “Isso foi no
tempo do stalinismo e sabemos quanta gente o stalinismo matou!” Concordo, mas
foi Stalin quem parou Hitler. Só um psicopata pode entender como pensa o outro
e, além disso, havia o Ideal, havia uma crença. Hoje, todo ideal é um adorno ao EU. A causa,
mesmo sendo coletiva é individual, é sempre o mesmo euzinho querendo tirar
selfie com desconhecidos na Henrique Schaumman – pra não ficar sempre na
Paulista. Nada de novo sob o sol - nem as perguntas aos entrevistados no
Metrópolis - tudo é vaidade. Nossa esquerda é um produto do capitalismo, um
fetiche à venda em lojas da Daslu e nem se dá conta disso.

Um comentário:
Uau!! Belo, verdadeiro desabafo de quem já cansou ou nunca se conformou com os ditos "grupinhos". Cansa não é mesmo?
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