Durante certo tempo, costumava conversar
muito com o professor Jacques Françoise, aquele que usa cachecol tanto no
inverno quanto no verão. Não o considero má pessoa. O problema com ele foi ter
passado toda a vida na universidade, esta linha de produção de idiotas. Cedo
terminou a graduação, daí foi direto para o mestrado, do mestrado para o doutorado
e do doutorado para o pós-doc e, assim por diante. De modo que não teve opção:
tornou-se um idiota. Tem bom coração até, mas é, irremediavelmente, idiota. O
único pecado que podemos lhe atribuir é o fato de gostar do mundo acadêmico, o
qual premia os idiotas e justifica a máxima de Cioran: “profundidade e erudição
jamais andam juntas.”
Quando não há outro professor por
perto, Jacques Françoise, aquele que só filosofa depois que põe o cachecol, até
que é uma pessoa bem gentil. Se há professores, passa para a outra mesa. Entende
que deve haver uma hierarquia. Não diz explicitamente, pois poderia soar
reacionário e isto é o que ele menos deseja, mas o pensamento, para ele, se dá
em graus. Graduandos devem se sentar para pensar com graduandos; mestrandos com
mestrandos; doutorandos com doutorandos e, assim, sucessivamente. De modo que,
quando não há outro professor por perto, ele trata as pessoas com toda
delicadeza, faz até piada; abre-se; conta até episódios de sua vida particular,
uma beleza. Quando, entretanto, aparece outro professor, seus modos mudam
instantaneamente, como se apertasse um botão em algum lugar... Ele ajeita o
cachecol e, sem mais nem menos, torna-se rude, irônico, dá patadas, às vezes
fica até agressivo com seus orientandos. Agora mudança mesmo se dá quando vem
um professor, qualquer professor, de outro país, principalmente da França... Aí
Jacques Françoise fica feito um menino de recados. Carrega até as malas do
visitante.
Num dia em que não havia nenhum outro
professor, nacional ou estrangeiro, por perto, Jacques e eu nos sentamos para
almoçar juntos. No fundo gostava de mim, morria de rir com meus trocadilhos
mais bobos, com minhas piadinhas de português. Ele estava eufórico neste dia e
falava do melhor período de sua vida: a primeira viagem à França. Ajeitou o
cachecol, contou das pessoas que conheceu, das aulas com os figurões da
filosofia. Esquecia a comida vegetariana no prato e falava... Falava...
Falava... Feito um menino. De tanto falar. Acho que, sem perceber, entrou no
terreno das confissões:
- Sabe, foi lá em Paris, nesta
primeira viagem, que pela primeira vez tentei ter relação com um homem. Todo
mundo era gay. Ser homossexual era um ato político, carregava toda uma energia
contra o patriarcado, o Estado, a Igreja. Era um ato de rebeldia, não
deixávamos que as leis se inscrevessem em nossos corpos, sequer as leis da
biologia.
- É?
- É.
- Mas, Jacques, você disse que
tentou. Que aconteceu? Não conseguiu?
- Ó, mon cher, acho que nunca senti
tanta dor na minha vida. Quando senti o início da penetração, dei um pulo de
uns três metros de altura, bati a cabeça no teto, quebrei o lustre.
- Mas você não tinha desejo? Não
seguia o desejo?
- Ah, querido, eu era muito jovem,
não sabia muito bem o que desejava, mas não podia ver um rabo de saia. Adorava
as mulheres e as francesas, então, são tão charmosas. Sempre fumando
elegantemente nos cafés, com um jeitinho blasé.
- E você não se envolveu com nenhuma
menina no período?
- Claro que não, você não entendeu, fazer
sexo era fazer política.
- Mas você não tinha o desejo e tudo.
E como temos estudado nO Anti-Édipo...
A questão do desejo... Não entendo.
- Somos héteros porque o Estado, a
tradição, a família nos faz héteros, condiciona nosso desejo. Na verdade, não é
isso realmente o que desejamos.
- Não?
- Não.
- Mas você não disse que tentou ter
relações com homens e não conseguiu?
- Pois é, não consegui.
- E não disse que era doido por um
rabo de saia?
- Disse.
- Então não entendo mais nada.
- Não é para entender mesmo, você é
muito jovem, está apenas na graduação, com o tempo, quando tiver lido mais
Foucault, Deleuze, Guattari, talvez, talvez, compreenda alguma coisa...
Terminamos a refeição. Caminhamos um
pouco. Sentamos num banco. O professor queria fumar. Retirou o fumo do saquinho
e fez um cigarro: tabaco orgânico, muito
bom, sabe.
Enquanto o professor Jacques Françoise
fumava, ousei...
- Professor, posso fazer uma
pergunta?
- Claro.
- E o Senhor tentou mais alguma vez?
- O quê?
- Ter relações com homens?
- Pufff, se tentei. Tenho tentado a
vida toda, mas nunca consigo. Às vezes tento chupar, mas os caras reclamam,
dizem que eu os arranho com os dentes, que não levo o menor jeito.
- Continue tentando. A persistência
é a alma do negócio...
- Será que senti uma pontinha de
ironia?
- Que é isso, professor? De minha
parte não, jamais.
Terminou o cigarro.
- Uma última pergunta, professor,
posso?
- Voilá, hoje você está impossível, parece
um menino de oito anos. Vai, o que é?
- E quanto às mulheres?
- As mulheres são meu carma, filho, vira
e mexe estou enrolado com alguma, não consigo me livrar; é como um vício, sabe,
uma adicção, como o alcoolismo. Acho que vou fundar um grupo de ajuda mútua,
nos moldes do A.A. doze passos, reuniões de duas horas, com depoimentos de dez
minutos, para homens que não conseguem deixar de gostar de mulher.
- É uma boa ideia, Jacques, uma boa
ideia.
E saímos caminhando rumo à universidade,
essa usina do saber, essa Itaipu do conhecimento.

Nenhum comentário:
Postar um comentário