Não há filósofos no Brasil,
apesar da pose. O filósofo cria conceitos. Não conheço conceito criado por brasileiro. Tudo o que obraram Marilena Chauí, Oswaldo Giacoia ou Scarlett
Marton vale menos que a obra de um cachorro vira-lata na calçada. Daí o nosso amor pelos
especialistas. É o que temos: especialistas. Se houver, em qualquer
universidade, uma palestra com Deus, pode ter certeza de que estará vazia. Se a
palestra for com um especialista em Deus, vai ter gente pendurada no lustre.
Volto ao bom baiano: Se tiver
uma boa ideia, faça uma canção; pois já está provado que só é possível
filosofar em alemão. Recorro então ao Síndico, não exatamente numa canção, mas
num diagnóstico certeiro sobre o Brasil. Disse Tim Maia, certa vez: “Esse país
não pode dar certo; aqui cafetão tem ciúme, puta se apaixona, traficante é
viciado e pobre é de direita.” Interessa-me, para esta crônica, a parte final
da sentença: o pobre de direita.
Fiz toda esta introdução para
chegar ao Carneiro. Não sei seu primeiro nome, mas todos os chamam de Carneiro
e Carneiro apenas. Ele trabalha como copeiro na padaria onde tomo café todos os
dias e onde, de vez em quando, almoço. É
um excelente profissional. Como é calvo, mantém a cabeça impecavelmente
raspada, assim como a barba e ainda usa gorro para provar que com higiene não
se brinca. Seu avental e seus panos de prato estão sempre brancos, de uma
brancura de comercial de sabão em pó omo; o qual ele compra com dinheiro do
próprio bolso quando o patrão, para economizar, compra sabão de marca mais
barata. A qualquer hora do dia que você for à padaria, será muito bem atendido
pelo Carneiro. Trabalha todos os dias das cinco da manhã às onze da noite, exceto
aos domingos quando sai às seis para ir ao culto da Igreja que frequenta. Olhando
assim parece o perfeito homem de bem, um exemplo. Mas Carneiro é humano e, como
todo ser humano, tem defeitos. O copeiro gosta de política e de falar de
política. Nunca foi às ruas, nem bateu panela, acha que isso é coisa de
vagabundo. No dia 02 de outubro, entretanto, 1º turno das eleições municipais,
fui almoçar na padaria. Ele chegou para me servir, tem seus clientes
preferenciais e eu sou um deles.
- E aí, professor, já votou no
João trabalhador?
- Cê é louco! E eu vou votar em
gente que faz plástica - brinquei.
- Sem brincadeira professor, é
o melhor candidato. Sempre existiu rico e pobre. O rico gera emprego, o pobre
gera o quê? Quanto mais fortalecido o rico está, melhor para o pobre também, que
tem onde trabalhar, ganhar seu dinheirinho. Veja essa turma toda do PT, além de
serem um bando de ladrões, ficam dando dinheiro a torto e a direito pra quem
não quer trabalhar, porque serviço sempre tem, nem que seja pra catar latinha.
Agora o Senhor acha que com uma merreca garantida o cara vai querer pegar no
pesado? Nada, passa o dia no boteco e no final do mês tem um qualquer na conta.
- Você está falando do bolsa
família certo? As pessoas falam demais o dinheiro é muito pouco, não dá pra
sobreviver.
- É, não dá, mas eles ganham
bolsa daqui, leite dali, uniforme para as crianças irem pra escola e depois não
colocam o uniforme nas crianças, fazem as camisetas de pano de chão, usam uma
vez e depois jogam fora, nem lavam. Quem não sabe quanto custa as coisas,
esbanja. E tem outros benefícios também, até pra preso. Não dá para entender.
Só de uniforme da minha filha, esse ano, gastei quase quatrocentos reais. Graças
ao bom Deus consigo pagar escola para ela não ter de se misturar com essa
molecada aí da favela da água vermelha.
- É um processo longo,
Carneiro, é preciso conscientizar o pessoal.
- E isso se conscientiza nada?
O cara passa vinte anos morando na casa, faz gato, não paga água nem luz e não
passa nem um cimento pra cobrir o tijolo, vai se conscientizar do quê?
- E o que você sugere então,
Carneiro?
- Cortar a moleza. Tudo quanto
é moleza. Quem trabalha come, quem não trabalha não come. O mundo sempre foi
assim. Só essa turma aí que andou no governo que pensou em fazer diferente. Tirar
de quem trabalha e dar a quem não trabalha. Nunca vi isso. Eu, por exemplo, não
pude estudar, mas trabalho aqui dezoito horas por dia. É puxado, mas tenho meu
carrinho 2005, minha casa está sempre pintadinha, a menina estuda em escola
particular, e ainda consegui fazer um planinho de saúde mais ou menos. Vou
dizer que tá ruim?
- É Carneiro, meu camarada, seu
esforço é louvável; mas não seria melhor se houvesse hospitais e escolas de
qualidade pra todo mundo? E, assim, você não tivesse de trabalhar tanto. A vida
é curta demais, você não vive, só trabalha.
- Cabeça vazia é oficina do
diabo. E tem mais, a saúde anda ruim mesmo, mas as escolas não. A turma ganha
de tudo e não quer saber de nada. Vai pra escola pra fumar maconha e fazer
bagunça, desrespeitar o professor, o Senhor sabe, ué? No meu tempo, tive de
sair da escola porque não tinha dinheiro nem para os cadernos... Caderno o quê,
nem para as canetas.
- Como falei antes, precisamos
conscientizá-los e fazer da escola um lugar mais atrativo.
- Fazer da escola um lugar mais
atrativo? Libera o funk, as drogas e a bebida, pra você ver se não lota,
professor. O país está assim, porque ninguém faz o que devia. Quem deve
governar, rouba; quem deve trabalhar, bebe pinga; e quem deve estudar passa o
dia fumando maconha...
Continuaríamos conversando, mas
era horário de almoço, e o patrão gritou do caixa.
- Como é ó Carneiro? O povo está
a esperar, vais ficar daí batendo papo?
- Já vou patrão...
Carneiro piscou o olho pra mim e
falou baixinho:
- 45.
Sorri. Quando se consegue
colocar na cabeça de uma pessoa que ela deve trabalhar 18 horas por dia para
ter direito ao básico, tudo está perdido. E essa mistura de Igreja e
meritocracia tem conseguido isso. Enquanto esperava meu pedido chegar, comecei
a cantarolar baixinho: “Eu vim aqui para lhe dizer... Eeeeeu vim aqui pra lhe
dizer, que eles agora estão numa tranquila, numa relax, numa boa, lendo os
livros da cultura racional: Guiné-bissau, Moçambique e Angola.” Só a cultura
racional mesmo pra dar jeito. Aqui cafetão tem
ciúme, puta se apaixona, traficante é viciado e pobre vota no João trabalhador

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