quarta-feira, 12 de junho de 2019

SÍSIFO FELIZ

Na mitologia grega, por desafiar os deuses, Sísifo foi condenado a trabalhar por toda a eternidade, rolando uma pedra até o cume de uma montanha. Quando, porém, chegava ao topo, a pedra despencava lá de cima e, no dia seguinte, Sísifo tinha de recomeçar o trabalho. Somos todos Sísifo: eu, você, nossos pais e filhos. Mais de um terço de nossos dias é comprometido com a dura tarefa de rolar a tal pedra morro acima. Para Sísifo, não havia férias ou feriados prolongados. Então, fico me perguntando: será que não pensou em suicídio? Claro que sim. O homem que passara uma coleira na morte pensou sim em dar cabo de si; só que não. Ao começar a cumprir sua sentença, Sísifo sofreu com o peso da pedra; praguejou, amaldiçoou seu destino. Depois, já nem via a pedra; perdido em devaneios no passado, no tempo em que tinha sido livre e feliz; ou no futuro, no tempo em que, por algum milagre, se livraria do jugo. Mas a eternidade é longa e Sísifo, como era de se esperar, perdeu as esperanças e, neste momento, quis morrer; mas já não podia morrer: já não podia dormir, nem acordar. É isso a agonia impensável: o escorpião encalacrado, nem sequer ter a possibilidade de decretar o próprio fim. E aí, foi neste exato momento que o milagre aconteceu. Sísifo percebeu que, embora o caminho fosse o mesmo, nunca era igual. A chave para a liberdade estava justamente na plena atenção ao caminho que tinha de fazer diariamente. E Sísifo ficou amigo das flores e percebeu que elas estavam diferentes a cada dia. Dia após dia, esperava a roseira botar seu botão, o girassol mexer sua cabeça grande na direção da luz. Percebeu também que o céu nunca estava igual, era impossível que as nuvens repetissem a mesma forma. Embora tudo fosse o mesmo, nada nunca era igual; e, ainda que estivesse preso à sua maldição, Sísifo se libertou. Habitar o presente é habitar a liberdade, independentemente das condições exteriores. O presente é um furo na eternidade. A única novidade é o sol. Então, este é o nome do milagre: eis que tudo se fez novo – Sísifo Feliz!
Hoje, quando vinha para o trabalho, vi um pai levando o filho no colo, embrulhado numa manta, para a creche. Vi também um velhinho passeando com o cão. E vi ainda um casal de namorados se despedindo para ir ao trabalho; ela acenou quando passava na catraca do ônibus. Vejo essas pessoas todos os dias, mas elas nunca vestem exatamente a mesma roupa. Como disse Camus: “É preciso imaginar Sísifo feliz”. Mais louco é quem me diz!
Eu sou feliz!

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