É fato que vivemos numa terra de juízes. Cristãos julgam o relacionamento de homossexuais; homossexuais julgam o relacionamento do velho que se apaixonou por alguém mais jovem. Outro dia, respondi a um post de uma amiga e ela me excluiu. Na postagem, havia a notícia de que o José de Abreu namorava uma menina de vinte e dois anos. O comentário dela dizia: “Onde a direita e a esquerda se igualam: no macho, branco, hétero”. Eu comentei apenas: “Achei que fosse na capacidade moral de julgar os relacionamentos alheios”. Essa minha amiga teve seu próprio relacionamento julgado por muita gente... E, no entanto, se acha no direito de dar o veredicto sobre o que vai dentro dos outros. Eu sou macho, branco e hétero, mas não sou o inimigo; sou o companheiro. O que querem dizer esses rótulos todos?
Mas não é dessa gente que quero falar. Quero falar, sim, daqueles que estão no mundo a partir do coração. Outro dia, vinha vindo pra casa pela Dutra e passei em frente ao presídio ali de Guarulhos, o Marrey. Havia mais de uma dúzia de barraquinhas coloridas esperando chegar a hora da visita. Pensei naquelas mães na noite fria, debaixo da garoa. É muito amor demais da conta! Uma mãe, um pai - dignos de tais palavras - nunca abandonam o filho. E se atormentam, claro, pois há situações em que só o filho pode se ajudar. Pensei também nas mães cujos filhos foram mortos, muitas vezes por causa de um tênis, um celular... Ainda assim, acho que é pior ter um filho assassino que um filho assassinado.
E aí, dia desses, essa minha amiga me falava do tempo em que trabalhava com acolhimento de adictos e da irmandade que se instaurava entre eles. Sexta-feira era dia de pizza. Mas o dinheiro só dava para comprar pizza suficiente para que cada um comesse um pedaço. Quando alguém recaía e não voltava, os outros guardavam o pedaço dele para o dia seguinte. O cara podia chegar doidão, virado, fedido, mas tinha seu pedaço de pizza garantido. Irmandade de quem conheceu a dor da indigência e da invisibilidade. É de gente assim que gosto, sabe! Gente que erra feio, se esborracha, se arrepende, chora, ri, faz graça e dança na beira do abismo. Há canalhas por toda parte, mas algumas das pessoas mais sensíveis e bondosas que encontrei pela vida estavam na sarjeta, invisíveis, esquecidos, entregues. Acho que nunca chegaram a constituir a armadura, o rosto certo para enfrentar a rua e o olhar-julgamento do outro. Como eram sensíveis demais, foram mastigados e cuspidos pra fora da engrenagem. Peças defeituosas; doloridas. Resíduo. Tudo tão triste.
Eu tenho essa coisa de gostar de escrever, sabe. Escrevo para afagar àqueles que perderam qualquer possibilidade de colo e cafuné. Hoje, quis escrever para acariciar aquelas mães nas barraquinhas e seus filhos no inferno lá de dentro; para lembrar os amigos que conheci no meu próprio inferno: o Geslan, o Paulo, o Caíque. Queria que minhas palavras fossem para essas pessoas cheias de sabor, e amor, e cuidado, como aquele pedaço de pizza que os meninos engaiolados no vício guardavam para o irmão que, sem sombra de dúvida, voltaria com a alma fraturada no dia seguinte.
AMOR DA CABEÇA AOS PÉS.🌻
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