domingo, 9 de junho de 2019
DE VOLTA AO COMEÇO
"E É COMO SE EU DESPERTASSE DE UM SONHO QUE NÃO ME DEIXOU VIVER". Como isso se comunica comigo. Eu vivi a vida inteira dentro desse pesadelo e só há pouco despertei. É como se, pela primeira vez na vida, meus olhos estivessem abertos. Eu nunca tinha reparado nas cores bonitas do manacá nessa época do ano. Eu poderia ter dito que nunca avistara um único manacá e, no entanto, no caminho até meu trabalho, tem um monte deles, com suas flores brancas e roxas. E o sol ganhou uma luz nova. Dá vontade de parar as pessoas na rua, chacoalhá-las e perguntar: “vocês não vêm o tamanho disso que é o mundo e a vida?” Se fosse pintor, acho que isso se manifestaria como a diferença que há entre os Comedores de batata e os muitos girassóis de Van Gogh. Na capa desse disco aí, o Gonzaguinha tem a face fissurada. Ele também, um filho da fenda; esse sentimento profundo de orfandade. A fissura dói de uma dor impensável; mas é ela, ao mesmo tempo, que nos dá uma visão mais ampla das coisas e – ainda assim – essa impressão de viver dentro de um sonho que não deixa viver de verdade, como o menino que não pôde entrar na festa e fica olhando as outras crianças se divertindo, enquanto ele está do lado de fora, no frio. Não é possível curar a fissura, mas é possível aceitá-la e acho que é disso que essa canção fala. De um despertar espiritual, um segundo nascimento, nascer já não de um útero, mas de dentro do próprio coração. De volta ao começo, até aquele ponto no qual o menino se sentiu abandonado e retomar dali a caminhada com um sorriso nos lábios. Talvez eu esteja próximo da morte sem saber ou de um trabalho dentro do qual eu desapareça como indivíduo. Acho que foi o Dr. Gachet quem disse que, na manhã em que saiu para pintar os corvos no trigal, Vincent parecia um homem que tinha vencido sua guerra interior. Naquela tarde, ele deu um tiro no próprio peito. E Double Fantasy, último play do John Lennon, parece a solução de todos os problemas vociferados no Plastic Ono Band e então: Mark Chapman; e o Gonzaguinha faleceu num desastre de automóvel aos quarenta e cinco anos. Havia poucos anos que tinha se entendido com o velho Lula. O fato é que já não sou eu quem vive, mas o sagrado quem vive em mim. E tanto se me dá se eu for chamado para partir, ou para fazer um trabalho no qual meu nome se apague para sempre. De volta ao começo, ao fundo do fim.
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