terça-feira, 4 de junho de 2019

NIETZSCHE, CAMILLE, O POTRO E EU

Em O nascimento da tragédia, a dinamite germânica Friedrich Nietzsche identifica duas forças modeladoras da cultura desde a Grécia: o apolíneo e o dionisíaco. O apolíneo seria o iluminado, racional, ordeiro; ao passo que o dionisíaco seria seu contrário. Nietszche, já ali, à beira da loucura, assinou alguns textos como Dionísio e outros como O crucificado. Mas o fim de Nietzsche não vem ao caso aqui. Estamos no primeiro Nietzsche, o qual identifica as duas forças modeladoras da cultura. A meu ver, há aqui uma correspondência com o Oriente: o par yin-yang. O yang estaria para o apolíneo, assim como o yin para o dionisíaco. Essas duas forças, em última instância, manifestam-se como masculino e feminino. Acho que tem a ver com o corpo: o homem mostra, ao passo que a mulher insinua. O órgão sexual masculino é um monte; ao passo que o feminino, um abismo. E, contudo, há muito da mulher no homem e muito do homem na mulher. Na natureza, tudo é lambuzado e, gente, tudo é natureza! De certo modo; o homem tem um útero na cabeça, ao passo que a mulher tem uma cabeça no ventre. No homem, até mesmo o coração tem de passar pela cabeça. Na mulher, ocorre o contrário. Mas é claro que há casos de homens regidos pelo feminino e mulheres regidas pelo masculino.
Falei tudo isso para chegar à escultura, que considero uma arte de predominância masculina, ao passo que a música seria feminina. Isso não impede, entretanto, que uma mulher seja uma tremenda escultora. Quero falar então de Rodin e Camille Claudel. As esculturas de Rodin são a forma em pedra do yang, do apolíneo. É um trabalho lento, racional, que busca a perfeição das formas e lapida até chegar à claridade da escultura que se escondia na pedra. Camille, por outro lado, é o obscuro, o emocional, o caos necessário. A perfeição não é meta. O filho é sempre perfeito aos olhos da mãe, mesmo em suas imperfeições. Acho que Camille não esculpiu, pariu suas obras. As suas são pedras da urgência, do desespero e do grito. O excesso é retirado às pressas e; breve-breve, ela já está em outro lugar. No meu coração e no que escrevo, estou mais próximo da Camille: não tenho tempo para ser ourives, só para a fúria do sentimento. Aí um analista amigo meu, disse que tenho coração de potro selvagem; ele acertou, porque sempre me senti atraído pelas naturezas que não se deixam dominar. Eu teria tido um fim trágico, parecido ao de Camille ou Nietzsche. Só que encontrei a disciplina de uma prática espiritual e me tornei - eu mesmo - condutor deste cavalo doido que sou. O apolíneo também tem seu lugar. Cavalo e cavaleiro andam calmos, em unidade, buscando o um; mas o potro nunca pode se desvencilhar de seu coração. E nem quer. Evoé Camille!

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