quinta-feira, 1 de agosto de 2019

DE UM CURTIS A OUTRO

Uma das minhas bandas favoritas sempre foi o Joy Division. Por muito tempo, cultivei o lado sombrio e vesti roupas pretas. Há certo fascínio em arrancar as casquinhas das próprias feridas. E eu era menino e ficava de noite arrancando cada casquinha que encontrava até que a ferida voltasse a sangrar. Não sossegava. E, como seria natural, nutria fascínio por Ian Curtis, gênio que deu cabo de si aos vinte e três. Mas, aí, tive filhos, vivi, peguei bicho pra cuidar, plantei flores. Já não visto tanto preto. Mudei de Curtis. Agora, não ouço tanto o Ian, fico mais com o Mayfield. Não precisamos ter vergonha de nossa alegria só para parecermos profundos. Ser negro me dá esse direito e consciência. O mais profundo é a pele; superfície pura. A gente pode optar pela alegria sim; mas, no Ocidente, alegria parece ser sinônimo de alienação. A gente pode ser alegre sem ser alienado. Até porque resistir não é só suportar, mas enfrentar com força, alegria e energia. Samba é resistência e jazz, e blues, e soul. Eu me mantenho em movimento e coloco meu terno cor de laranja pra trabalhar. Alegria, sol e sensualidade; transbordamento e esperança. Nesse som; repetição e diferença, jazzy. O tema é dado e repetido várias vezes, mas nunca do mesmo modo, há mil variações possíveis sem que o horizonte se perca. E há tambores, bateria, ESSES TAIS METAIS! Na metade da canção, o som parece que vai acabar; só que não, há uma pausa e tudo se repete sobre a forma vazia do tempo. Repete-se o ciclo inteiro – que é ele mesmo estruturado sobre repetições diferentes - sob novo eixo... Esse sopro alucinado, orgástico. O tempo fora dos eixos do qual Hamlet falou. Eterno retorno sim, só que da diferença. Isso é tão preto – mas com roupa colorida! - e me dá tanto ânimo pra retornar ao trabalho depois das férias. É um prenúncio do dance, do house, da música eletrônica: essa bateria... Arruma espaço na van e vamos lá trampar! Eletrificados!
move on up.

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