quinta-feira, 1 de agosto de 2019
COMUNISMO
Nunca li Marx direito porque nasci poeta e meu trabalho é sonhar. A Revolução que vislumbrei acontece depois e nela há lugar para abelhas, borboletas e bolhas de sabão. Vi o que o ser humano poderia ser. Vi que o trabalho poderia ser poesia, quando todos cuidariam do bem do irmão ao lado; quando o homem deixaria de ser um Sísifo-Diário, realizando tarefa sem sentido, para ser o grande agricultor celeste; e a alface que plantei estaria bem ali ao lado, no prato de minha irmã. Quem não levantaria jovial para labutar assim? E a família encontraria seu fim. Não porque ela é em si má, mas porque seria vista como posse, mesquinharia. Haveria uma só família; a humanidade. Um pai, o Céu; uma mãe, a Terra. Já não existiria o meu filho ou o seu filho, só nossas crianças. E a apresentação do meu filho, ou as notas dele, não seriam mais importantes que as do seu. E o amor seria um transbordamento de ser, sem contorno. Ainda que pudesse ser dirigido a um objeto, não existiria esse sentimento de posse e ninguém poderia mais dizer: meu marido, ou minha mulher. Já ninguém seria escravo de ninguém, algemados aos boletos bancários e às muitas dívidas cotidianas. E o sexo já não seria essa masturbação a dois, mas uma doação de amor, um cuidado com o outro, festa, alegria: crianças brincando com os corpos. O pronome eu seria abolido de vez para a construção de um grande nós. E a natureza seria sagrada como a barriga de Deus. E a mulher, esse Deus escravizado, seria adorada num altar, já não mais serva do amor masculino, mas professora do corpo, bailarina do prazer, encarnação do milagre que é trazer vida ao mundo. Todos os corpos seriam belos, porque não haveria comparação, cada corpo já é em si um milagre. E o corpo, agora liberto e feliz, seria a fonte de mil volúpias e gozos; e já nenhum prazer poderia ser chamado pecado, tal palavra perderia significado. O corpo como perfeição. E já ninguém trabalharia doze horas por um prato de arroz com feijão. E ninguém viveria em barraco ou mansão. Cada mulher seria Eva e cada homem, Adão e, mesmo Deus seria desnecessário, pois se manifestaria em carne e osso no meio da rua, na mão estendida, no peito aberto de cada irmão. Não haveria necessidade de louvar um Deus silencioso em templos, porque o maior dos templos seria o corpo de meu semelhante. Vem comigo, me ajuda a construir, eu vi. O além do homem não está em Nietzsche, mas em Maiakóvski. Cuidemos de nós, façamos do nosso cantinho de mundo horta e jardim... Sem ciúme, sem inveja, sem mesquinharia, sem comparações, sem miséria; só amor; o muito-muito amor, esse outro nome da palavra comunismo, anarquismo, cristianismo... Ressuscita-me, enquanto toco esse noturno louco na flauta dos esgotos.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário