Em Proust, foi uma madeleine que trouxe à tona todo um mundo latente. No instante, todo o passado está condensado. Lá, é como se o presente fosse só a parte mais dilatada desse passado enorme que só faz crescer. É Bergson, uai. E eu nunca comi uma madeleine. Ou comi e não sei. Só que outro dia fui ver ao filme Azul é a cor mais quente e, ao ver Emma, a menina de cabelos azuis, foi como se eu tivesse capturado um passado; pescado peixe grande com isca pequena. É que a Emma é igualzinha a uma amiga que eu fiz quando morei no interior: a Maria Aparecida. Ela, a Maria Aparecida, era um menino lindo e, embora seus cabelos não fossem azuis, ela era magra e os fios eram lisos e curtos iguais aos da menina do filme. Foi amizade à primeira vista. A gente se entendeu de cara; e falávamos de meninas, de carros, de futebol, de livros, filmes, sons; de videogame. E a gente jogava bilhar e saía pra beber e paquerar. Fazíamos as mesmas matérias na faculdade, mas ela era alguns anos mais velha e terminaria antes de mim. Quando eu estava no segundo ano, a Maria começou a namorar uma menina linda e meio maluca e a gente acabou se afastando. Sei que foi um relacionamento pra lá de conturbado; com tudo o que é tipo de violência. E aí aconteceu uma coisa punk! Essa menina que a Maria namorava e largava, largava e namorava, cometeu suicídio. Foda de fato. Vi minha amiga dançando na beira do abismo, perto da casca de banana e doida pra escorregar. Colei nela porque gostava, e ela colou em mim porque eu existia. Tinha dias que pareciam normais. A gente conversava. Fazia café. Fumava. Tentava meditar junto e tudo. Mas tinha dias que a Maria só chorava. E eu ficava perto, pra ela saber que não iria sozinha fosse pra onde fosse. E aí, numa sexta-feira, aconteceu o que queria confessar. Fazia um frio lascado. A gente tava embaixo das cobertas. Ela com a cabeça no meu colo, porque eu gosto de fazer cafuné. Assistíamos ao filme Lua de fel, ainda me lembro. E a Maria me tocou. Começou a alisar os pelos das minhas pernas. Não sei o que foi aquilo e nem de onde veio. Sei que ela passou a mão pela minha barriga, a língua quente nos meus mamilos e nos beijamos sem entender.
- Porra, Maria, tô me sentindo gay.
- E eu tô me sentindo hétero. Dois traidores, mas afeto não tem nome, só travessia – e riu.
- Isso é igual a incesto, Cidão.
- Ainda nem lemos Freud - éramos alunos da Psico.
E nós só seguimos o fluxo, sem pensar, como se uma força maior estivesse se movimentando entre nós dois. E estava mesmo.
- Você é delicado, Dan. Se quiser, pode me penetrar.
- E você é forte, Maria, pode fazer de mim o que quiser.
E nos amamos como se estivéssemos no útero do amor.
E, depois disso, nos tornamos invisíveis. Eu virei um afeto dentro dela; e ela, um calor dentro de mim.
P.S. Do filme, não gostei.
- Porra, Maria, tô me sentindo gay.
- E eu tô me sentindo hétero. Dois traidores, mas afeto não tem nome, só travessia – e riu.
- Isso é igual a incesto, Cidão.
- Ainda nem lemos Freud - éramos alunos da Psico.
E nós só seguimos o fluxo, sem pensar, como se uma força maior estivesse se movimentando entre nós dois. E estava mesmo.
- Você é delicado, Dan. Se quiser, pode me penetrar.
- E você é forte, Maria, pode fazer de mim o que quiser.
E nos amamos como se estivéssemos no útero do amor.
E, depois disso, nos tornamos invisíveis. Eu virei um afeto dentro dela; e ela, um calor dentro de mim.
P.S. Do filme, não gostei.
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