“Lembra daquelas festas de vinte anos atrás, quando morávamos todos juntos e terminávamos bêbados na piscina e ninguém, ninguém, nunca era chato, ou se preocupava com os andrajos da velhice?” – Alma pergunta: – “Tudo parecia sonho, mas algum demônio já plantava ali despertadores; pois, mesmo lá, houve abortos e um irmão cometeu suicídio; esfregando, por supuesto, a morte em nossa cara”.
Alma se deita. Coração-cabaré; sacrifica-se por chocolate, doce de abóbora em forma de coração, nesga de rapadura. No fundo, quer salvar os homens. Abre os braços ao executivo poderoso que comanda mil homens, mas não vislumbra franja de carinho da esposa, por mais que presenteie com joias caras. Abre as pernas ao estudante que perdeu o amor da vida para o melhor amigo. Abre o coração ao homem impotente que se justifica todas as vezes – “deve ter sido as tripas fritas do almoço” - e nunca pede mais que um cafuné. Alma ama e seu amor transborda pelo vilarejo: acaricia os bichos, acalanta as crianças, fala a língua sensual das flores. Alma ama porque tem uma ferida de mil faces e todas as outras feridas do mundo encontram aí Eco e ressonância. E vem o político poderoso que lhe esbofeteia a face, e vem o jardineiro que traz buquê de noturnos girassóis. Alma leva o coração escondido na boceta e nele cabem o bispo e o mendigo, o rei e o carrasco, Esaú e Jacó, a mãe do morto – todos os anjos são andróginos - e o assassino... Alma está doente: tem diabete, para compensar o corpo exposto a tanta amargura; usa óculos, tal e qual Miguilim, que não queria ver o amor entre mãe e tio; às vezes ocorrem-lhe erupções cutâneas - um modo de afastar os outros para respirar. Alma ama. Puta? Puta sim, mas também Kuan Yin ou Avalokita, ou Maria de Madgala. Quer incendiar os corações para que os homens despertem e possam se salvar. Eles plantam despertadores; mas, ainda assim, caminham pelo mundo feito sonâmbulos, zumbis.
Com aqueles de coração puro, Alma não se deita, mas lava-lhes os pés com as lágrimas e os enxuga com os cabelos. “Fazei que eu procure mais amar que ser amada. Compreender que ser compreendida” – diz de si para si, enquanto recebe na pele pingos de vela vermelha.
Alma é frágil, azul, tem a consistência de uma brisa, mas em seu coração cabem tanto Jair Palhaço, quanto Eduardo Suplicy. Seu sexo é misericórdia e oração. Enquanto se transforma em regato ou tempestade, pede a Deus que tenha piedade de todos os seus homens. No fundo, são só crianças abandonadas em busca de figura paterna; querendo, de um jeito tosco, a atenção do pai ausente.
"Misericórida, Senhor, eles não sabem o que fazem".🌻
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