Não era bonito, Branquinha, quando a gente se sentava no alto do morro e olhava o mar lá embaixo? As pessoas que nem formigas. Nem naquele tríplex inventado no Guarujá teriam vista assim... E o chá crescendo pelas encostas - feito esperança - perfumando a manhã e o pôr-do-sol! A vida podia ter dado certo. Eu cri. Porra, Branquinha, por que você deixou de ver o menino em mim, hein? Será que não percebeu o quanto lutei pra continuar caminhando e ser apenas um homem, mesmo quando as coisas desandaram? Fiz o melhor que pude com o que fizeram de mim. Lembro sim dos dreads que eu mesmo fiz no seu cabelo liso e do jeito que me olhava, cheia de admiração, quando eu pegava do violão pra cantar e era pra você, só pra você, todas aquelas canções da brisa. Ai... Lembro o brilho bonito na mistura da nossa pele, nossos braços encostados e a luz do sol por cima. Eu fui Adão, sabia? Ou será que não, será que não fui mais que um delírio tímido de mim mesmo e pequei? E coloquei Eva no lugar do Mayor? Será que por isso o castigo e essa vontade de? Faça daí um sinal, cante uma canção, mande uma telepatia, Branquinha! De ser feliz na vida, só tive uma possibilidade e ela tinha teu nome, meu amor. Ai... Não vou dizer que não, tento continuar caminhando, mas os pés de brisa que planto na encosta já não florescem. Qual foi? Eu não fiz o melhor que pude, Branquinha? Eu não enfeitei o barraco? Não lavei a louça, limpei o banheiro, te tratei como rainha? Eu não te dei anel, amor, devaneio, pulseira, sorriso, flor, cachorro e gatinha amarela? Ai... Quem me vê na comunidade diz que ando mal. Perdi seis dentes, cai no bueiro, quebrei três costelas. Da tranca você sabe, nem preciso dizer. Nenhum homem está inteiro sem a mulher que lhe dá forma e caminho, Branquinha. Por que você não volta, bebê? Eu poderia fazer tudo de novo e melhor. Tá doendo demais pra mim. Você é mais que só mulher. É amor que não pertence a esse mundo! Se fiz alguma coisa errada, fala. É Agosto, ai... Por que você me deixou, bebê? Ai... Eu sou só um menino sem casa, nem mãe. Ai... Como é que posso ir pra algum lugar? Ai...
BRANQUINHA
Dois presidiários, de noite. O mais novo fala, o outro ouve:
- Meu irrrmão, quando a casa caiu, nem sei o que fiz. Alucinei merrrmo, aí. Tu pode dar um telefonema, disseram. E eu nunca tive advogado porra nenhuma. Fumava tanto nessa época que nem lembrava o número da minha própria casa. Só lembrei o número dela, Profe. E liguei. Falei na lata. Acabei de ser preso, Branquinha. Escutei o berreiro. Era ela chorando do outro lado. Acho que tava com a neném no colo porque ouvi outro choro. Aí, meu irrrmão, o cara pegou do telefone. Escutei ele falando. Dá aqui. E desenrolou: “aí, maluco, não quero mais que tu ligue aqui. Ela tá casada agora. Tá escutando esse choro? É da nossa filha. Se liga, maluco. Faz seu adianto, porra!” Desliguei, né? Dali-depois eu nem queria mais saber o que ia acontecer comigo, Professor, os cara podia me matar, tava pouco me fodendo. Acho que foi a única mulher que amei, se é que existe essa porra de amor. Ela tentou me levar até pra Igreja, o pai é pastor, sabe; mas, qual o quê? Com o tempo, eu já tava levando os crente tudo pro bar. Ah, Profe, só faço merrrda merrrmo, tem jeito não. Nasci pra perder.
- Eu te amo, Paulinho.
- Qualé, Profe, tá me estranhando? O que a malandragem vai pensar?
- É amor de Deus. Não é amor desse mundo não.
- Eu sei.
- Queria que a vida fosse mais generosa contigo, meu mano. Tu tem coração. É um moleque bom, Paulinho.
- Profe!
MALANDRO MACHUCADO
E aí aconteceu essa oficina na cadeia. A rapaziada da ONG trouxe o violão. O menino pegou do instrumento, afinou, ensaiou os primeiros acordes, riu seu sorriso sem dentes. Era um daqueles reggaes roots de Trenchtown. O menino ficou na introdução por uns cinco minutos; mas, quando ia começar a cantar, só saiu uma interjeição; dura, dolorida, chorada, mordida, lascada, rasgada: “AAAAAAAAAIIIIIIIIII!” E, depois disso, o dilúvio.
Eu era o Professor.
domingo, 4 de agosto de 2019
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário