quarta-feira, 7 de agosto de 2019

HONRAR DARONDO - carta do morango

A rosa não deixa de ser rosa se ninguém lhe diz: “você é um rosa!”. De todo modo, ela há de continuar vermelha, misteriosa, sensual, perigosa em seus espinhos. Quando, por outro lado, uno acaricia suas pétalas e diz: “É uma rosa!”, a flor fica feliz porque foi compreendida; e toda a criação se esforça por se expressar e fazer-se entender. Alguém diz: “Você é uma rosa e é linda. Nunca vou exigir que seja um girassol.” E a rosa não cabe em si d...e felicidade, porque além de compreendida foi aceita. A rosa não tem ego, o que na rosa se alegra é o ser, o próprio ser que se expressa ali de modo encarnado. Penso também na alegria da criança quando dizemos que o tênis com luzinhas piscantes no pé é bonitão. O artista tem muito da criança e da rosa e sofre como a rosa – se acaso quisessem transformá-la num girassol - quando lhe perguntam por que ele não esquece isso e arranja um emprego de verdade? Penso em Darondo. Nos dois discaços que gravou e no ostracismo, na dor. Sei que entre um pico e outro deve ter pensado: “tenho tanta beleza em mim, mas o mundo não quer minha beleza, só vê minha pele preta, minha boca banguela, o mal que me faço, então é melhor nem dizer. Vou guardar minha beleza até que ela mofe, apodreça, desapareça, deixe de doer tanto dentro”. E num dia de grau maior – não é o ego é o ser – ele diz na biqueira: “Sou Darondo, aquele que cantou Didn´t I, quero mais um pico”. Mas, no gueto, nas quebradas, quem está preocupado com a delicadeza de certos corações que só querem uma pausa da dor? “Darondo é o caralho” – dizem e o espancam e os dentes machucados do malandro despencam da boca: marfim que sangra na madrugada. Ai. Pra mim, acabou. Mas tem também o dia bom, uai! Quando um jovem Dee jay o procura na rua e diz aos outros mendigos aquilo mesmo que ele disse a vida inteira e ninguém acreditou: “Este homem poderia ter sido um gênio, mas cortaram suas asas!” E ele se enche de alegria. Agora pode até morrer. Acabou o inferno. A temporada na agonia impensável. A rosa volta a ser rosa. É menino outra vez e tenta cantar com a voz triturada de tanta nicotina, mas o suingue, a malandragem de mel e o jeito-jó ainda estão lá. Em artistas como Darondo, Deus se faz preto. Adorno não entendeu isso: o negro-elétrico! Eu sim entendi, compadre. Do fundo de minha solidão, estive contigo na noite do chute e do frio. Sei que o seu violão só diz uma coisa: “Se estiver atravessando uma tempestade, malandro, continue caminhando. E mesmo quando já não te amarem, continue a ser amor no vendaval”.
Está chegando o dia dos pais e eu acabei com minha família.
Já não sou eu quem vive, nesses dias, é esse artista preto quem vive em mim. Caminho dentro de um sonho.
Quero honrar Darondo.

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