Há pessoas que se acham sofisticadas demais para serem felizes. No fim das contas, o mal-estar nada tem a ver com profundidade; ele é fruto do eu-egóico. A camada mais externa do ser. Vaidade das vaidades, tudo é vaidade. As pessoas ficam tristes não por serem inteligentes, mas por não terem sua inteligência reconhecida pelos demais. O eu-egóico é o inferno e o Diabo, não há outro. E o homem ocidental achou que, para ser profundo, e o mais profundo é a pele, seria preciso cavar até o inferno: milhares de páginas da literatura ocidental são sobre esse mal-estar chique; mas Li Bai cantava apenas a natureza, a mulher e o vinho: é Chinês, mas é meio mineiro também: Beto Guedes, uai. E tem mais, é só no Ser, naquilo que Mestre Eckhart chamava de fundo da alma, que se pode amar. O resto é doença do ego: narcisismo, egoísmo, posse: o Diabo. O amor é como o sol, doa-se à roseira e à erva danadinha. O mais, barganha do egoísmo; o carrasco com autopiedade; o torturador cobrando gratidão do torturado. Hoje, aceito a escrita que me dilacera, mas dou valor também à que me deixa leve. Aprendi muito com as bolhas de sabão, os beija-flores e as borboletas. Tanto quanto aprendi com as toupeiras e insetos de Kafka e Dostoiévski. Então, não confunda melancolia profunda com melancia na bunda. Não sou filósofo, não aponto caminhos para a humanidade; encontrar um canto de língua e de mundo para que eu mesmo pudesse (r)existir deu um trabalho danado. Aquilo que me salva pode ser a perdição do outro. E cada um deve ser livre e responsável para construir seu próprio caminho. Se anoto nesses diários as clareiras que meus pés roçaram na mata, é porque cedo adquiri o hábito da escritura. Sartre, que era toupeira, escreveu que o inferno são os outros. Não existem outros. O mundo só vai melhorar quando destruirmos a noção de um eu separado; que não é o mesmo que destruir a singularidade de cada um, pelo contrário. Até lá, entretanto, estarei me ocupando de limpar a casa, plantar flores e acender incensos. Bom dia!
* Uma amiga mineira me disse certa vez que a simplicidade é o último grau de sofisticação.
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