domingo, 18 de agosto de 2019
VERDADE E NUDEZ
Criei muitas máscaras e, tal qual Álvaro de Campos, chegou um momento em que eu não sabia mais o que era o rosto. Perdi-me dentro de mim; comigo me desavim. Então, larguei fora as máscaras e contemplei no espelho o horror de ser buraco. Diante do oco, jurei: “nunca mais coloco uma máscara, seja para ser aceito, para me sentir mais bonito, ou para me proteger”. E saí nu para a rua, empunhando a fissura, porque a verdade é uma forma de nudez e afirmação. Faço strip tease diariamente na vida e nas redes sociais e, ainda que me importe, não cedo ao julgamento alheio, porque ser o que nasci para é questão de vida ou morte. Mesmo aquele vestido que costurava, arranquei e atirei à plateia. Dizer a verdade não é só não mentir é ter a coragem de ficar nu diante de si mesmo e de Deus. Há quem diga que não mente aos outros, mas enuncia isso a partir da mentira fundamental: o não-ser-si-mesmo. E isso acontece, na maioria das vezes, sem intenção; é que a pessoa não sabe que não se conhece; está toda desmantelada, procurando no meio das muitas máscaras alguma que tenha resquício do rosto. Eu lhes permito o mundo, deixem-me ao menos minha nudez. Garanto que nada há de pornográfica nela. É artística.
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