domingo, 25 de agosto de 2019
A NOITE EM QUE ELA DESPENCOU NAS PEDRAS
Apesar da pouca idade, a senhora sabe que vi coisas que até Deus. Eles eram assim que nem abelha em volta da colmeia, marimbondo no casulo, criança atrás de doce em dia de Cosme e Damião. Raros eram os que não voltavam. Experimentou, voltou, já era; capeta abraça. A maioria, no entanto, consegue conciliar, espaçado, e tocar da vida. Mas tem aqueles que. Eu percebia no olhar. Homem, moça, menino, ladrão, sapa, veado. Eles têm olho triste. Igual olho de cavalo. Olhão que fala de falta e dói, assim, na veia artéria da gente. Aorta? Que seja. A senhora já reparou que cavalo fala com o olho? Eu conhecia de longe os que tinham aquele olho. Antes de se achegar, já tava tudo condenado. Os outros não. Na verdade, quase ninguém sabe, mas eu. Ninguém sonha crescer e ser noia na vida. Tô errado? A gente imagina ser médico, cantor, bombeiro, trapezista, porteiro, jogador de futebol. E aí acontece aquele machucado que nenhum mertiolate sara. Moça me contou que, anos antes, menina ainda, o moleque que ela gostava cumprimentou ela na escola. Ela ficou contente. Sorriu. Daí, escutou outro menino gritando. “Ficou maluco? Cumprimentando a gorda-crente assim na fila do lanche”. E riu. Bastou. Às vezes dá pra consertar; quase nunca, no. O que eu podia fazer depois de ouvir uma história dessa? Eu vendia. Dois por dez, vai. Ajudava a anestesiar. Tipo um médico, um anjo. Anestesista? Que seja. E, a senhora não crê? Na lata? Sim, na lata também e tinha de muito. Conto causo: teve um veado que a família internou. Ele parou. Só que, parado, pagava os menino pra bater nele e roubar todo o dinheiro. Ele dizia: “o dinheiro é de vocês, mas vão ter de tomar!” Ficou bravo comigo: “Quero você, mineirinho!” Faço isso nada. A senhora acredita? Pagava pra levar chute na cara. E depois ainda pedia desculpa. Mas usar não usou mais. E teve menina novinha que rodou banca. E, quanto mais a malandragem judiava, mais ela pedia. Queria até que cuspissem na cara. Quando a pessoa desgosta assim desse jeito, fico morrendo de dó. Penso em levar pra casa e cuidar; mas, qual casa? Dia frio assim, a senhora sabe, não gosto. Fico triste. Sem jeito de esperança. Lá em Minas era raro dia assim. Sol ano todo. São Paulo tem desses; aos magote. Diz que já foi pior. Foi num dia frio assim que a moça apareceu. Bonitona. Sobrancelha feita, unha igual. Cabelo tratado. A gente via. Mas tinha aquele olho de cavalo! Vi conversando com os menino. Queria pó. Pó não dura, mais que fosse. A turma cheira tudo. Pro patrão? Mesmo que ter caixa eletrônico. Pó não tem, só pedra. Que seja – olho pretim de cavalo triste – você me ensina a fumar? O outro menino: Isso é fácil. E pronto. Já foi. Eu tava lá na noite que ela despencou nas pedra. Sim, essa moça triste artista que deu no jornal. Foi. Quase que desobede, ramelava, eu, e apanhava depois, só paulada, ou morria. Pensei dizer: “moça, faz isso não. Você é das que fica”. Eu posso dar dessas? Sou dono não, aviãozinho e só. Que será que disseram ou fizeram pra ela vez na vida? Senti piedade. Se pudesse, garrava todas pena do mundo e me explodia com elas no meio dum buraco fundo. Quem sabe se, morrendo, não curava o mundo. E, senhora crê, era eu lá, vendendo, na noite em que ela despencou nas pedras.
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