quinta-feira, 25 de julho de 2019

JONI


Eu procuro receber as pessoas como elas são. Somos quem podemos ser. Então, o que faço é sempre uma festa pra celebrar a chegada de alguém na minha vida. A princípio, as pessoas se mostram desconfiadas, chegam devagar, pisando com cuidado: “isso não existe nesse mundo cão!” - pensam; mas, depois, elas se abrem. Nem precisaria, porque eu sempre sei e nunca erro. Eu olho e simplesmente vejo. É uma coisa ontológica: a minha ferida enxerga a ferida do outro. Aí eu finjo que não sei, fico quieto, deixo o outro falar. É sempre assim, as pessoas me procuram. É porque eu também não me escondo. Digo tudo, mesmo as coisas mais horrorosas que já fiz. Quero nem saber. E aí as pessoas acabam gostando da minha canção, querem cantar comigo. Dizem que tenho um dom lindo. Em inglês, dom é gift, que também pode ser presente. Um presente de Deus e Deus é sempre sublime: primeiro nos dilacera e depois nos acolhe nos braços. É só pra sermos mais humildes mesmo. Agora, não sei se queria esse presente. Se pudesse, acho que declinaria e me transformaria num herói dos dias úteis. Eu era um bambu meio diferente, mas tranquilo, na beira do lago. Arrancaram-me do meu mundo, cortaram-me as extremidades, deixaram-me para secar ao sol, queimaram-me por dentro e encheram meu corpo de buracos. “Essa flauta tem um som lindo!” – é o que dizem hoje. Só que, para que o assum preto cante como canta, no sertão, furam-lhe os olhos. Meu centro vazio e doloroso é a embocadura por onde Deus me beija a boca e sopra para que sua glória se espalhe. Vou dizer uma coisa: Arte nada tem a ver com estética, tem a ver com páthos; trata-se de um comunicado direto da paixão. Enfim, eu queria mesmo era falar da Joni Mitchell. Eu também vi a ferida dela. Não adianta mentir pra mim. Eu não escuto as palavras, vou ao lugar silencioso de onde as palavras brotam e esse lugar não mente: de embocadura para embocadura. A Joni se fez de forte a vida inteira, fingia ser livre e ficar com quem bem entendesse, mas o fato é que ela nunca se perdoou – até reencontrá-la – por ter deixado a filha. Quando sentia a felicidade perto, ela fugia porque não julgava merecer aquela felicidade. No fundo, ela se sentia má. E já não se permitia amar. Eu ouço essa dor em cada acorde: com Leonard Cohen, com Jaco, com James Taylor, Browne, com o imenso Graham Nash, dentre tantos outros. O fato mesmo é que ela nunca se permitiu a paz e a serenidade que só o amor - e aqui falo de um amor de doação - pode nos dar. Ela fugiu de sua felicidade como o Diabo foge da cruz. O bom é que, como disse Adélia, as mulheres são desdobráveis e ela não morreu. A vida achou um jeito de colocá-la em contato com a filha outra vez e hoje ela brinca com e cuida das netas. É lindo! Eu vi o sorriso. Joni Mitchell está feliz e eu fico feliz com ela, porque a amo.

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