terça-feira, 16 de julho de 2019

DESPERTAR - E O AMOR COBRIU TODAS AS FERIDAS

Era um tempo de violência. Os velhos eram deixados na rua pra morrer de frio e as crianças passavam fome nas carvoarias. Ele não era um cara mau. Confuso, talvez, mas nesse mundo louco quem é que entende alguma coisa? Ela era mulher e Mulher sempre foi sinônimo de Luta. Ele não conseguia entender a ética rígida dela, a força no olho e a retidão no falar pausado. Ela não se escondia, enquanto ele não conseguia se perdoar por ter nascido. Juntos, tinham tudo pra dar errado. Separados, idem. Mas aconteceu o milagre. O que nele era lacuna, nela era retalho e agulha de remendo. O que nela era ânsia por compreensão, nele era peito aberto. Ela clamava por inteireza e liberdade; ele deixava que ela fosse de acordo com. Não eram duas metades do mesmo, mas dois inteiros que se incendiavam. Quer dizer, inteiros em parte. Ele vinha quebrado; ela, perdida. Porque era pobre, ele juntou todas as economias num porte vazio de maionese para levá-la a um motel na noite de mês do namoro. Nesta manhã, ele rogou a Deus por entendimento à luta que ela lutava de peito aberto, como mulher destinada a. Não que ele fosse escroto ou mau, era homem apenas e, como homem, aquele mundo de dores e batalhas estava-lhe vedado. Por ter um pênis, a ele era permitido ser; ela, no entanto, tinha de lutar pra isso.
- Eu tenho as pernas fraturadas – ela dizia. E ele pensava: eu também tenho minhas unhas encravadas. Todos carregamos cruzes e nenhuma delas é leve, querida. Guardava, contudo, silêncio.
A noite, aquela noite, sim, pensavam, seria de amor e leveza. Qual o quê? Quando entraram no quarto, o real se abriu ao meio. Sem aviso, ela arrancou o próprio coração e enfiou no peito dele. Foi aí que ele viu; mais que viu, sentiu na própria carne. Naquele quarto barato, tudo cheirava a mentira. Os espelhos no teto estavam oxidados; os lençóis, semi-encardidos; o colchão de courvim, despelado. Não era canto de amor, era câmara de tortura. E ele, atravessado pelo dela coração, percebeu que ali milhares de mulheres tinham fingido orgasmo; outros milhares tinham feito amor à força; ali, prostitutas tinham apanhado na cara e meninas trans tinham sido esfaqueadas na barriga ou no cu. A cama redonda, em verdade, não era cama, mas roda de tortura: feiticeira enfrentando as chamas, donzela de ferro, empalamento! Tudo tão cruel e doloroso e violento e ruim! Ele não era mais ele, era todos os homens e todo o mal praticado contra alguma mulher, algum dia, em nome de algum ideal, um deus, um costume, uma moral maior. E o menino, envergonhado por ser homem, pensou emascular-se; pensou oferecer seu próprio pênis em sacrifício como modo de pedir perdão – humildemente. E ele teve vergonha de suas unhas encravadas diante da imagem de seios arrancados a fórceps.
- Me perdoa – implorou, agora com a dor, a verdade e a humilhação de seu próprio coração de homem.
- Perdoar? Por quê? – ela disse - Você me faz sentir leve, e amada, e feliz... – e sem julgamento acolheu aquela cabeça maluca no seio desnudo. 
Ele sentia o cérebro em chamas, mas ela reparou mesmo que ele tinha hálito de filho ao acordar. 
E o amor cobriu todas as feridas do mundo.

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