Isso de ser preto tem a ver com dignidade, saber carregar o sofrimento sem espernear. Ser forte mesmo no momento em que se desmorona. E crer na Força, amparado pelos Orixás. E seguir, porque sempre há um caminho mais leve em meio à mata densa. O preto tem a exata dimensão de sua dor. É uma coisa de exílio, abdução, abandono. Autopiedade é coisa branca, como comer de boca fechada, usando os talheres certos; bons modos e minimalismo de. Estilística. Preto é exuberância, cor, ouro, transbordamento de ser. É corpo, sim, saudade de África, o estrangeiro privado de liberdade que. Você conseguiria imaginar Schopenhauer no Congo? Um dia, quando era negro, pensei morrer de alegria. Eu vinha de longe. Sem crer em política. Sem entender o que essas mocinhas tão brancas reivindicavam. Elas falavam de clitóris e clamavam por orgasmos com seus homens quase transparentes. Diziam que seus parceiros não sabiam chupar, mas elas mesmas – percebia-se – nunca tinham engolido uma flauta doce. O problema é sempre o outro. E, quando nada há do que reclamar, inventa-se. Só tem direito ao gozo quem mergulha, quem se entrega, quem corre o risco de se perder. Amar é pular de um trapézio ao outro, sem rede de proteção, e confiar que o outro vai segurar nossa mão. Deste risco – passo na corda bamba sem corda – é que surge o tremor, o involuntário, o vizinho da morte, a ausência de eu: o orgástico. É de dentro dessa vulnerabilidade de ser que nasce o gozo, o resto é técnica sexual, cursinho online de amor; patricinhas feministas e mauricinhos de crossfit: - tem canudinho? – perguntariam enojados no momento de pôr a boca no sexo do parceiro. Mas era manhã, chovia e eu nunca mais tinha conseguido remendar meu coração. Amava, contudo, essa mulher e meu peito alegrava-se. A garoa caía num ângulo indecifrável e bonito, chovia sim e era bem no meio de mim. De repente, sem aviso, tudo se fez brilho, visita de ancestralidade. Enquanto dirigia meu carro pela rodovia, depois de dois dias e noites de amor ininterrupto – só quem já sofreu fundo sabe trepar assim -, pensei que estava completo e que aquele era um bom momento pra morrer. Eu conhecia a vida. Não haveria mais novidades. Tudo seria repetição. Tem gente que se mata por causa da tristeza. Eu morreria por causa de uma alegria sem metro. Dádiva. Não foi preciso pensar duas vezes. Já não esperaria esse amor tão bonito chegar também ao seu desfecho cheio de ressentimentos e acusações vazias.
Virei o volante no rumo da serra e deixei o carro voar.
Milagrosamente, ainda estou aqui. Só que agora sou branco. bem mais branco.
terça-feira, 16 de julho de 2019
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário