terça-feira, 23 de julho de 2019

TARDE


Olhando seus olhos percebo que também andou chorando.  O pior é que o que dói mais em mim não é minha própria dor, mas a sua ferida no meu coração que sempre quis cuidar. Você confundiu o poeta com um homem de negócios; tratou sob a mesma ótica o menino e o banqueiro; olhou através de mim, como seu eu fosse transparente, e não me viu. Depois de todos esses anos, como? Nada há pior que quando nos olham e nada de bom esperam; e se a gente faz milagre, o outro pensa: ah, deve ser algum truque; nada de bom pode vir dele! Eu não quero mais falar disso. Ainda estou juntando os cacos do meu coração que ficaram espalhados nos cantinhos mais inadequados da casa; atrás do fogão, da geladeira. Você pode ficar aí, juntando o resto das suas coisas; ou sentada na mesa, tomando café pensativa. A culpa é sempre do homem mesmo. Quando a gente escorrega, é porque somos canalhas; quando são as meninas que vacilam, a culpa também é nossa, porque não demos atenção, não reparamos que tinham aparado as pontas dos cabelos, a cor nova do esmalte nas unhas. Bem, tenho uma novidade pra dizer na cara de qualquer um: eu não sou um Bolsonaro, sou Guaccaluz - o jardineiro; e não matei minha criança, não esqueci minha canção no meio do caminho. Já disse, não quero mais falar disso. Emagreci treze quilos; nem a lasanha nem o sorvete parecem ter sabor. E quando coloco a comida na boca, ela parece de borracha; eu mastigo e mastigo e depois cuspo no vaso do banheiro. Simplesmente não desce. Não me interesso mais por livros, pintura, política, literatura, mas cultivo um jardim e ouço música. O mundo lá fora continua rugindo, só que não tem mais nada pra mim. Tudo tanto faz, sabe. Outro dia, me disseram que a lua estava cheia. Corri no quintal e olhei a Lua imensa, redonda e avermelhada, mas não senti nada. Tudo está oco, sem sentido, meio morto. Eu mesmo não ando muito vivo. Pareço um desses zumbis das séries que as crianças assistiam. Continuo caminhando sem saber pra onde. Terça, quinta e sábado ponho o lixo pra fora e me escondo do lixeiro para que ele não me jogue junto no caminhão. Eu sou por dentro como uma trouxa de roupa suja. E não quero mais saber de amor – essa palavra tenebrosa que tanto cantei. O sol está se pondo no parque em cujo lago os peixes coloridos lutam pra respirar. A sombra dos prédios cai sobre as casas como um golpe de Estado. Como você pode olhar pra mim e não me ver? Será que morri e me tornei, sem saber, um fantasma, feito o Bruce Willis no Sexto sentido? Ando tendo um monte de insônia. Não cago, mas também não como. Sinto as pedras recrudescendo dentro dos rins. É tão tarde nesse mundo que segue indiferente. Desencontro. Desencanto. Deram veneno pra gata. O nosso tempo juntos sobre a Terra acabou. É tarde; e a noite já vem.

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