Olhando seus olhos percebo que também andou chorando.
O pior é que o que dói mais em mim não é
minha própria dor, mas a sua ferida no meu coração que sempre quis cuidar. Você
confundiu o poeta com um homem de negócios; tratou sob a mesma ótica o menino e
o banqueiro; olhou através de mim, como seu eu fosse transparente, e não me
viu. Depois de todos esses anos, como? Nada há pior que quando nos olham e nada
de bom esperam; e se a gente faz milagre, o outro pensa: ah, deve ser algum
truque; nada de bom pode vir dele! Eu não quero mais falar disso. Ainda estou
juntando os cacos do meu coração que ficaram espalhados nos cantinhos mais
inadequados da casa; atrás do fogão, da geladeira. Você pode ficar aí, juntando
o resto das suas coisas; ou sentada na mesa, tomando café pensativa. A culpa é
sempre do homem mesmo. Quando a gente escorrega, é porque somos canalhas;
quando são as meninas que vacilam, a culpa também é nossa, porque não demos
atenção, não reparamos que tinham aparado as pontas dos cabelos, a cor nova do
esmalte nas unhas. Bem, tenho uma novidade pra dizer na cara de qualquer um: eu
não sou um Bolsonaro, sou Guaccaluz - o jardineiro; e não matei minha criança,
não esqueci minha canção no meio do caminho. Já disse, não quero mais falar disso.
Emagreci treze quilos; nem a lasanha nem o sorvete parecem ter sabor. E quando
coloco a comida na boca, ela parece de borracha; eu mastigo e mastigo e depois
cuspo no vaso do banheiro. Simplesmente não desce. Não me interesso mais por
livros, pintura, política, literatura, mas cultivo um jardim e ouço música. O
mundo lá fora continua rugindo, só que não tem mais nada pra mim. Tudo tanto
faz, sabe. Outro dia, me disseram que a lua estava cheia. Corri no quintal e
olhei a Lua imensa, redonda e avermelhada, mas não senti nada. Tudo está oco,
sem sentido, meio morto. Eu mesmo não ando muito vivo. Pareço um desses zumbis
das séries que as crianças assistiam. Continuo caminhando sem saber pra onde.
Terça, quinta e sábado ponho o lixo pra fora e me escondo do lixeiro para que ele
não me jogue junto no caminhão. Eu sou por dentro como uma trouxa de roupa
suja. E não quero mais saber de amor – essa palavra tenebrosa que tanto cantei.
O sol está se pondo no parque em cujo lago os peixes coloridos lutam pra
respirar. A sombra dos prédios cai sobre as casas como um golpe de Estado. Como
você pode olhar pra mim e não me ver? Será que morri e me tornei, sem saber, um
fantasma, feito o Bruce Willis no Sexto sentido? Ando tendo um monte de
insônia. Não cago, mas também não como. Sinto as pedras recrudescendo dentro
dos rins. É tão tarde nesse mundo que segue indiferente. Desencontro.
Desencanto. Deram veneno pra gata. O nosso tempo juntos sobre a Terra acabou. É
tarde; e a noite já vem.
terça-feira, 23 de julho de 2019
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