sexta-feira, 5 de julho de 2019

QUANDO ACONTECE O AMOR

Eu os vi de longe, ontem, quando fui ao shopping comer um lanche com meu filho. Fiquei guardando, mandando meu amor à distância. Era um casalzinho muito simpático, jovem. Dos dois, nenhum tinha mais de dezoito. Chegaram meio sem jeito, como se não coubessem nem mesmo naquele centro de compras da periferia. Ele: cabelo chavoso, a bermuda colorida de veludo da ciclone, o cordão de lata no pescoço. Ela com uma blusinha rosa cheia de lantejoulas, pequenos furos e dois remendos nos ombros.
Sentaram-se.
O menino estava encurvado, com as mãozinhas cruzadas no meio das pernas. Queria impressioná-la. Talvez fosse o primeiro encontro. Pediram um único suco.
- Não quero nada, não – ele disse magro à garçonete.
Ficaram em silêncio, esperando. Senti que ele queria dizer um monte de coisas. Mostrar que fazia e acontecia... Essas coisas de macho das quebradas. Era bem capaz de ela acreditar só por amor. Só que ele não dizia, tinha vergonha. Se fosse a um amigo, poderia contar vantagem-mentira. Como era ela...
O suco chegou vermelho. Ela bebeu bem devagar, olhando o povo. De vez em quando, trocavam umas duas palavras. Não tomou todo o suco.
- Vai bebe, não aguento mais. – ofereceu.
- Não, também tô cheio.
- Mas você aguenta e eu não.
Ele pegou o copo e tomou de um gole só. Foi pagar a conta no caixa para que ela não visse as moedas, mas era desastrado e as moedas caíram no chão. Espalharam-se pelo piso branco.
E aí foram embora. No corredor, ele colocou o dedo mindinho na mão dela e foi abrindo passagem até que as mãos se cruzaram. Depois, desapareceram em meio aos consumidores.
Tem tanta coisa bonita brotando no mundo! É tão bom encontrar alguém humano no meio da loucura! É preciso educar os olhos, aprender a botar reparo. Bom dia, gente. Que julho seja leve.

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